Querido Suso,

Énchenme de ledicia as albízaras por teres atopado as túas antigas botelhas. Non quería que caesen no esquecemento aquelas pequenas obras mestras (non é adulación, así as considero).

Aínda hai algunha botelha máis gardada no meu ordenador. Tanto as que non publiquei como as xa publicadas neste blogue envíochas cando queiras por correo electrónico. Están practicamente no seu formato orixinal. Podes contactar comigo en lambetadas@gmail.com

Grazas por escribir. Non pares nunca.

Xabre

P.D.: A descrición do blogue dicía así:

Unha feliz mañá de setembro de 2006, entre millóns de bytes sen orde, achei todas aquelas súas botellas

Unha mañá chuviosa a informática sorriume, amosoume a súa parte máis amábel. Permitiu que atopara, entre montes de cedés con arquivos de todos os tipos, aqueles cachiños de arte que foron as Botelhas ao mar de Suso. Durante moito tempo lía unha e outra vez moitos daqueles escritos, centrándome unha e outra vez naqueles parágrafos que máis me gustaban.

As sete primeiras “botelhas” xa foron recopiladas no seu momento por unha boa persoa, anónima, iso si. Posto que non conseguín contactar de ningunha maneira co blogueiro, creei este novo blog, botelhaaomar.blogaliza.org, onde cada certo curto tempo mandarei unha das botellas varadas no meu ordenador de volta ao mar binario. Podedes deitar aquí tamén as botellas que queirades, cheas de comentarios.

Xabre http://ouriceira.blogaliza.org

BOTELHA AO MAR (Outubro-2002)

A FONTE DO OURO NUM BAR DE BARCELONA. Essas pessoas som imigrantes de longe,
venhem da América índia, os traços indígenas que vírom os conquistadores
espanhóis e portugueses. Neste bar de Barcelona adoram essa máquina
“caça-níqueis”, alimentando-a com maravilha, com cobiça, com fé e com euros.
Cinco séculos depois fizérom a viagem de volta, da América para aqui, para
encontrarem neste bar do bairro Gótico a Fonte do Ouro que os conquistadores
procurárom antes na sua terra.
SOL EM SITGES. Ai, que doce é o sol dos ricos, morno, levemente cálido,
acarinhando os iates brancos e azul-marinho, enquanto a gente trabalha.
(Talvez a vida de rico seja umha forma de humanismo, nom tenho meios de
sabê-lo. Lástima.).
ESTE FOI O TEMPO EM QUE VOLTAMOS A VER UM MINISTRO CIVIL do Governo Espanhol
fazendo o saúdo militar à bandeira “roja y gualda” e dando vozes à unidade
da pátria, da língua e de nom sei que outras cousas que já esquecim. Como se
nom tivéssemos memória. Volta a Opus e voltárom todos eles. Ou já estavam aí
e agora mostram-se.
EU DE RAPAZ ERA TAM POBRE QUE NEM PARA UMHA BANDEIRA TINHA, FIZEM UMHA DE
TERRA. De miúdos um amigo ensinou-me umha bandeira proibida, primeiro olhou
a um lado e a outro assegurando-se de que ninguém nos via e logo com a ponta
do sapato riscou no chão da terra um rectángulo e umha banda que o
atravessava em diagonal. E depois explicou-me que os dous lados eram brancos
e a banda azul. Logo apagou-na cuidadosamente com o sapato.
Assim que nom preciso de muitos metros de bandeira nem de espingardas,
tambores e trombetas militares nem de vozes de mando e posiçom de firmes. Se
eu quero, quando ninguém me vê, nada mais preciso de umha pouca terra onde
riscar a bandeira com a ponta do sapato, e já. Mesmo num campo de
concentraçom pode a gente ter umha bandeira assim. E cada um fai a que
prefira.
A ESPANHA NAZI. Os bispos espanhóis, aí estám, querem canonizar Isabel “a
Católica”, a do grande “progrom” judeu, a fundadora dum estado confissional,
a da “doma e castraçom da Galiza”. Estes bispos, sucessores dos que ganhárom
a Guerra Civil e governárom com Franco, conseguem surpreender ainda os que
os conhecemos.
Nom irá Franco depois? (Ai, para que lhes darei ideias).
IAN McEWAN, um romancista estimável, diz numha entrevista que prefere nom
ser um intelectual público. Mas, a perguntas da entrevistadora acaba por
opinar e diz os lugares comuns baseados nas “informaçons” diárias que
subministra a máquina da propaganda da administraçom norte-americana.
Puerilidades que num ingénuo som inocentes e que num informado son
culpáveis.
Quanto nos custa cumprir o que dizemos, é tam difícil. Se alguém sabe que
nom é um intelectual e que nom deve opinar em público deve calar a boca. Os
silêncios fam muito mais atraentes as pessoas, os loquazes nom aprendemos.
O MUNDO DOS NOSSOS AVÓS era miserável em tantos aspectos, submetido aos
poderosos servilmente, fame, enfermidade, medo…O nosso mundo é outro,
todos temos mais comodidades e bens, menos opressom, mais
televisom…Pagamos tudo o que temos em senso. O nosso mundo está falto de
senso, de realidade e substáncia.
BOMBA EM HELSINKI. Um adolescente matou-se e matou sete pessoas cumha bomba.
Fabricou a bomba baixando a informaçom da Rede. Internet é também isso: umha
perda da inocência, umha desapariçom da aldeia sem volta atrás. Os
finlandeses descobrem de súbito que estám num mesmo mundo caótico,
imprevisível, violento…
SE MUDEI é que me perdim polo caminho.
PASSEI UNS DIAS NA CATALUNHA, lim imprensa catalá: que alívio ler imprensa
democrática, comum, sem mais.
UMHA MOSCA NO AEROPORTO! A vida é incorrigível, mesmo se adentra nesses
lugares mortos que transitamos os vivos hoje.
ESTATÍSTICA HIGIÉNICA: 4 homes urinando num reservado, três vam-se sem
lavarem as maos. (Quem fai mal, o que lava as maos ou os que nom?) Como para
andar-lhe dando a mao à gente.
SOBRE OS MAPAS E AS TERRAS. É tam trivializadora a imagem que dam os meios
de comunicaçom de todos os lugares. Essa Almeria de folclores
hispanofranquista…, eu agora do aviom enxergo umha Almeria selvagem de
serras brutais e vivas. Nos seus pés, na sua aba, umha salpicadura de
plásticos, estufas. Nom som nada, se tosse a serra voam para o mar todos.
RUMO A MELILHA. Estou sobre o mar rumo à África, já o esquecera! As colónias
som isso, a negaçom do lugar, neste caso da África. As imagens criadas pola
ideologia colonial impedem-nos ver a realidade.
MELILHA: Plaza de España, monumento enorme: “Una, grande y Libre”,
Confecciones Castilla, Foto Imperial… Isto nom tem amanho. E poderia
tê-lo, e devera tê-lo.
Mas os colonos vivem dentro dum velho postal virado a sépia e preferem
ignorar a evidência do mapa: estám na Africa, na terra dos berberes.
AQUI OS MARROQUINOS, os “mouros”, nom som como nas grandes cidades
espanholas ou francesas, suspeitos. Aqui vivem na subordinaçom, som umha
realidade emudecida dentro desta cidade colonial, mas apesar disso estám no
seu território, nom som gente arrancada, som pessoas integradas no seu
mundo.
NOS E.U.A. HOJE DETIVÉROM UM HOME E UM MOCINHO que matárom dez pessoas com um
rifle ao longo de vários dias. O home aprendeu a disparar no exército do seu
país, logo oficiou no ataque dos EUA e os seus aliados ao Iraque. E agora
vê-se que tinha saudades do seu ofício e pujo-se a praticar por livre.
Ser assassino também che é umha profissom como hai outras. E sempre hai quem
cha ensine. Um exército, por exemplo.
APRESENTAR UM NOVO ROMANCE A MADRID. Alá vou dentro dum par de dias, e como
sempre grandes expectativas, e como sempre logo inevitáveis e surdas
decepçons. Somos os carrascos de nós próprios e façemos da vida a corda que nos vai afogando.

[No mar outra vez dende o 05.01.2008]

BOTELHA AO MAR (Agosto-2002)

BOTELHA AO MAR (Agosto-2002)

ESCREVER POESIA, pode-se escrever poesia voltando à infância, eu nom podo,ou recebendo a velhice, ainda nom me visitou.

É MENTIRA TUDO ISSO: Tanto ruído da vida política espanhola, todo o dia a falar com a boca cheia da palavra “democrático”.
A verdade da democracia espanhola é o que está oculto, está sob a terra: essas fossas comuns com os corpos sem identificar e sem recuperar dos que fôrom assassinados polo fascismo franquista. A verdade é o medo a recuperar esses corpos, enquanto continuam nas igrejas católicas e nos muros públicos as homenagens aos “caídos por Dios y por la Patria”. A verdade da democracia espanhola som esses óssos que continuam arrombados, esses brancos frutos
duros e amargos.

LEITE NEGRO. A política que negociou e negocia o Governo Espanhol com a U.E. condena o sector agrário na Galiza. Umha consequência é que há mais leite produzido do que está autorizado, chamam-lhe “leite negro”. Leite negro e amargo é o que leva bebendo este país anos e séculos.

IMPRENSA DE GUERRA. Os meios de comunicaçom espanhóis, ou especificamente os madrilenhos, que som os que se apresentam como espanhóis, desde há anos mostram-se como arma de guerra do Estado contra o terrorismo da ETA e contra o nacionalismo basco. Naturalmente, esse é o flanco polo que combatem contra todos os nacionalismos que questionem o seu, o nacionalismo de estado. Era bem um relatório que analise a desapariçom brusca dum jornalismo que
apenas tivera tempo a nascer logo de morrer o ditador e ja está a mirrar.

ONDE é que vai a mala de Walter Benjamin? A Europa que pudo ser e nom foi.

E POR QUE tivo que pousar Herr Heidegger as suas mãos peçonhentas e esquivas nas palavras indefensas do Hölderlin? Vilezas inúmeras formam a história da
cultura.

VIVER É ESTAR POSSUÍDO (pola vida, que nos usa, nos arrasta, nos tripula, até que nos deixa a um lado e continua esplêndida).

AS FÉRIAS passamo-las colados uns aos outros, encurtando o espaço que temos o resto do ano. A consequência é que nom há a pausa, o descanso distante de que a gente precisa para escrever estas notas. Estas notas nascem de poder distanciar-se umha miga, sequer um momentinho.

NOM SE PODE ENTENDER O CRISTIANISMO FORA DO JUDAISMO. Debera pedir o reingresso na casa do pai.

LUZ DE AGOSTO. “Light in August”, intitulou um dos seus melhores romances com um dos seus mais belos títulos o William Faulkner. A luz de agosto é dura, quase queima a planta e porém já leva dentro a melancolia polo que vai vir. Esta soidade.

[No mar outra vez dende o 15.06.2007]

Botelha ao mar (Junho-2002)

BOTELHA AO MAR (Junho-2002)

E JÁ VAM ALÁ DOUS ANOS desde que botei a primeira botelha, garrafa cheia de letras, ao mar virtual.
Daquela pensava eu que tinha a possibilidade de editar as minhas opinions em jornais impressos e que isto, esta pagina web, era un refúgio, um lugar privado e anónimo, para as cousas inclassificáveis.
Dous anos depois constato a perda tam grande de liberdade de expressom na Galiza e que nom hai apenas lugar para mim. Constato um boicote efectivo ao meu último romance. Constato que um escritor dificilmente pode viver do seu ofício se os meios de comunicaçom do seu país nom lho permitem. Constato a canseira. Também constato que me resta umha decisom a cada dia mais cansa de continuar até onde puder. Eles nom podem ser os donos do meu sonho, o meu sonho dumha cultura digna e um país livre é meu, nom deles.

A CAÇA. O primitivo que caçava animais salvagens unia-se assim a eles, tomando-os e devorando-os, e formava parte do seu mundo. Do mundo. A caça era devoçom e religaçom.
Nós, que comemos carne industrial, pitos fabricados en série em jaulas míseras e insomnes,…Nós que comemos pobre carne sem alma…A que nos unimos? A que nada nos unimos, a que vazío nos adentramos? A que escuridade fria e morta nos ligamos devorando essa carne vazia, comungando essas hóstias de nada?

O PESSIMISMO FAI-NOS REACCIONÁRIOS E RUINS. É bom frequentar o tratamento de pessoas entusiastas e optimistas.
(O mais seguro é que também elas cansam e som tocadas pola melancolia quando estám sós e ninguém as vê. Benditos sejam, que dissimulam para benefício nosso, que insistem na sua inocência e na esperança.)

DESDE O AVIOM. E de súbito, alá em baixo, montes nevados. Sinto-o, mas nom podo dizer “montanhas nevadas”, mália que o som. Essas palavras vam para mim unidas a um hino fascista espanhol.
Também o “nacionalfascismo espanhol” da minha infáncia e juventude corrompeu a linguagem, lixou as palavras. E, porém, na Espanha nom existe consciência disso, nom existe consciência de cousa nengumha. Essa consciência está na cultura alemana deste tempo, mas a Espanha nom conhece a culpa, “que cousa é isso?”

UM ESQUECE A ESPERANÇA A MIÚDO, esquece a promessa de que existe essa montanha e essa neve aí em baixo.
O cepticismo, tam autosuficiente, e a verdadeira mentira.

OS NOSSOS AVÓS VIVÊROM NO TEMPO COSMICO, o tempo cósmico e solar das estaçons e da luz do dia e do luar da noite. Nós somos analógicos, vivemos no tempo das 24 horas do dia e do calendário dos 365 dias. Os nossos filhos som já digitais, vivem no tempo virtual.
Ai, a que velocidade nos afastamos do mundo. Hai esperança, hai céu, hai noite, hai dia…, nesse novo mundo virtual que ja é o nosso?
(Desse medo meu nasceu-me o romançe “A sombra caçadora”. Nom tenho medo a ter medo, o medo é livre. Nada mais tenho medo a que me poda e me vença um dia)

O BUFOM. O bufom é o espelho do poderoso. A máis poder, mais cruel deve ser o espelho.

MÁGOA QUE MORRERA LEE MARVIN.

TODA A CIVILIZAÇOM OCIDENTAL é plena e profundamente judaica. Assim pois, o antisemitismo contra o judeu nom é senom edipismo, ódio ao pai. (E, paradojalmente, que judaico nom é o edipismo!)

MENTRES ESCREVO ISTO interpreto na minha cabeça e com a boca a Première Gymnopédie. Verdadeiramente um está tentado a pensar que a obra artística viva, além dum rito de celebraçom da vida e o seu mistério também é comemoraçom do artista. Satie.

PAUL CELAN quando escreve tem detrás as Escrituras, nasce dessa raíz: a palavra sagrada.
Todos os demais, os que formamos essa heregia, os ocidentais, partimos da palavra literária, da palavra desacralizada, profana. Somos filhos da miseria espiritual.

“GHOST DOG”. E que bem que existam Jim Jarmusch, Forest Whitaker, a banda sonora de “The RZA”. E que bem que exista o cinema, esse bem.

‘THE BELIEVER”. Alguém di na saída do cinema, “vim-na como desde fora, parece-me dumha cultura mui diferente da minha”. Como alguém pode dizer que a agonia da existência cindida, que o judaísmo, é dumha cultura alheia?

SOM UMHA ENCICLOPÉDIA CAÓTICA. Umha enciclopédia do meu caos pessoal.

NO FUNDO, PARA UM ESCRITOR OCIDENTAL, só existe o judaísmo. Ou o seu contrário: a religiosidade, a vida mágica, dos celtas, o humano religado que habita um mundo mágico.
Som judeu e celta à vez.

ZONA CONTAMINADA. Num bairro de Madrid cartazes dos vizinhos: “Zona contaminada por ruidos nocturnos. (www.espaciovecinal.org)”. As cidades morrem de si próprias, autodestrúem-se.

TURISMO RURAL. A Xunta de Galicia legisla as condiçons que devem cumprir as hospedagems chamadas “Casas de Turismo Rural”: devem ter telefone e TV em cada quarto. Este mundo estúpido!

[No mar outra vez dende o 11.06.2007]

BOTELHA AO MAR (Maio-2002)

BOTELHA AO MAR (Maio-2002)


PRECISAMOS DA MÚSICA BRASILEIRA, precisamos vitaminas para a alma.

A FAMA: A hipóstase da imagem própria.

OS ALPES. Pensei que já nom, mas volvem-me a assombrar, som tam novos! Pura mocidade da terra.

O ESCRITOR TRABALHA com dous únicos materiais, a linguagem e o narcisismo.

QUEM SE MOSTRA DE FRENTE E ESPIDO só será visto depois de que esteja morto e haja a distáncia do tempo.

O ESCRITOR NOM ESCREVE PARA O PRESENTE, e se escreve assim engana-se. A obra literária vive num tempo próprio, que nom é presente, nem futuro nem passado. Num tempo sempre actual (mas nom presente).

BUSH E SHARON levam-me a procurar no quiosque de volta a “New Left Review”. Fam-nos lembrar cousas importantes. De nós e do mundo.

NO PORTO DE HAMBURGO, “Restaurante Galego. Portugiesische Spezialitaten”. A gente que anda por aí, polo mundo, compreende o essencial e perde o medo ás fronteiras e aos preconceitos enfermizos.

EM KIEL. Por entre as nuvens assoma o sol inesperado. Bálticos de pele fina a untar-se de crema protectora sob este sol imaduro de Maio. A pele tam fina da inocência.

HAI QUE ALIMENTAR generosamente o orgulho cada dia. E à vaidade meter-lhe umha boa malheira também cada dia.

UM DESSES PARTIDOS DE FUTEBOL DO SÉCULO, desses que é quase obrigado ver, que os fanáticos quigeram que imobilizasse a todo o mundo perante as pantalhas, as ruas desertas como se tivesse caído umha bomba de neutróns.
Porém, hai gente pola rua, aínda ficam seres vivos. Ha supervivintes. Mesmo os pássaros estám a cantar ignorantes do encontro transcendental que havia paralisar o mundo.

ISSO SIM, pola noite até à madrugada demonstram que eles, os futeboleiros, som os donos da rua. E dam berros e ouveam e fam soar os claxons dos autos para que nom durmamos os demais.

NUM PARQUE DE SALAMANCA um homem olha-me passar fitando com um olhar de Leopoldo María Panero. Talvez a gente tenha olhares comuns e partilhados.

EUROPA, É CERTO, ESTÁ AVELHENTADA, e como consequência também infantilizada.
A prolongaçom da vida trouxo como consequência a prolongaçom da infáncia e juventude, da imadurez.

MENINHO NO TREM. Tenho nas maos um poemário do George Trackl, “No escuro espelho da minh’ alma/ Há imagens de mares nunca sentidos”, mas um meninho que durmia esticado numha cadeira do comboio aí diante, canso de tanta viagem, acordou e ofereceu-nos ao mundo a sua carinha de rato curioso e tenho de encartar o livro. De súbito pareceu-me falso lêr palavras sombrizas com ele ali ao lado, tam lindo e tam luminoso.

UMHA FOTO DO POETA: O Trackl sentado numha cadeira do estúdio fotográfico da Viena antiga, a olhar para a frente com o sobrancelho francido. Contra o fotógrafo, contra o que o contempla? Contra quem fijo essa foto o poeta?

[No mar outra vez dende o 14.04.2007]

BOTELHA AO MAR (Março-2003)

TURBULÊNCIAS A BORDO. Voando nos avions temos oportunidade de viver várias vezes a iminência do “momento final”. Temos feito repetidas vezes os preparativos para a nossa morte.Temos feito exercícios espirituais a bordo.

QUE A GALIZA VIVE HORAS EXTRAORDINÁRIAS desde há uns meses parece-me evidente. Umha evidência persoal é que até agora mesmo, que ando num aviom para Madrid, nom pudem suspender este tempo ansioso e nom pudem sequer escrever umha anotaçom como a anterior. É a primeira em meses (e esta, a segunda). Con todo, sigo superado polo que se demanda de mim, polas cousas às que eu mesmo me obrigo. Há passar, há passar. E de tanta canseira ha ficar umha força nova, estou certo.

FRAGA IRIBARNE já tinha antes o olhar astuto do canalha e as maos sujas de sangue inocente. Agora, além disso, também tem as maos cheias de merda e chapapote.

LENDO “Felizes como asassinos” (“Happy Like Murderers¨, de Gordon Burn), investigaçom sobre um matrimónio británico de torturadores sexuais e assassinos. Mareia e suja. É como mergulhar-se em gándaras fétidas e temíveis. Fai que temamos o sexo, que olhemos dentro de nós próprios com pavor e nojo.

NUM AVIOM, surpreendo a moça que viaja no assento contíguo com umha expressom de beatitude no rosto, está linda com esse esgar inocente (numha primeira impressom parecera-me umha moça vácua). Sigo o seu olhar, que cousa está a ver? E aí está a pantalhinha para distracçom da passagem a passar um desfile de modelos.

VIVEMOS SOBRE UMHA PELE. Voando percebe-se que a terra, orgánica e cultivável, é umha pele fina e mesmo descontínua sobre um mundo imenso e mineral. E nós com toda a nossa megalomania, habitamos sobre essa fina pele. E temo-nos polos donos do mundo.

MESMO ESSA FANTASIA DO HOLOCAUSTO NUCLEAR, de que havemos fazer rebentar o planeta num estouro é megalomania. Um dia, umha hora, um instante, o mundo, o planeta, sacudirá essa leve pele velha e nós iremo-nos com ela. Simplesmente.

SARTRE, fijo espectáculo do compromisso?

QUEM É VULCÁM, expressa-se a labaredas. (Também co fume.)

HÁ UM TIPO DE LITERATURA, sabemo-lo, que só se pode escrever quando se chega a umha idade, ou quando se é um sobrevivente dumha catástrofe: a testemunha da orfandade do “eu”. Figem os quarenta e sete anos, vive toda a minha gente, mesmo quase todos os meus amigos. E os meus inimigos. E já estou canso, gasto. Como se fosse marchar eu diante de todos. E como se nom fosse ter esse privilégio do conhecimento que dá a um escritor a idade e, ou, a sobrevivência. Acho que nom escreverei elegias. Con tudo, melhor assim, melhor que sobreviver a quem um quere.

O CONFORTO. A gente esta aí fóra, e passa encolhida pola chuva e o vento, e eu aqui dentro, a olhá-los, sentado confortavelmente. Nom existe o conforto para um se nom há outros que andem na intempérie.

A RESPONSABILIDADE DO INTELECTUAL? O saber fai-nos responsáveis do que sabemos, o conhecimento ata-nos. A mais conhecimento, mais responsabilidade. O intelectual ou é responsável ou é culpável.

OS LIVREIROS DA GALIZA DÉROM-ME O SEU GALARDOM, “IRMANDADE DO LIVRO”, fôrom valentes. E forom castigados. O prémio que todos os anos tinha sona e muito espaço informativo este ano quase desapareceu. Condenado a desaparecer, se som premiado também fam desaparecer o prémio. O mau de carregar cumha “fatwa”, umha maldiçom, é que essa condenaçom também atinge quem se achega a ti. A minha gratitude e as minhas desculpas, prezados livreiros.

MAS OS QUE CENSURAM INFORMAÇOM, que querem matar vozes, som parte da velha Galiza. Som passado, há umha nova Galiza que ainda nom tem expressom oficial nim mediatica. Mas existe.

INVASORES. A 22 de Agosto de 1939 Hitler pediu ao seu estado maior que procurasse umha escusa para justificar a invasom do Iraque, quer dizer da Polónia: “Ninguém vai perguntar ao vencedor se dixo ou nom dixo verdade. Temos de agir com brutalidade: a razom está sempre do lado do mais forte.”O senhor Aznar cita muito nos últimos meses Churchill (que em vez de invadir um país afrontou bombardeios e um intento de invasom!). O que é seguro é que o seu amo, Mr. Bush, quem leu foi o Hitler.

QUEM MATOU A DEMOCRACIA NOS EE.UU. de America? Nom foi um inimigo exterior, a democracia esta-lhe a ser roubada aos cidadaos norte-americanos polo seu goberno e polos próprios meios de comunicaçom social norte-americanos. O inimigo está dentro.

E LOGO ESSE CHEIRO A CARNE QUEIMADA QUE CHEGA DESDE O IRAK? E um banquete de festa ou e um sacrificio.

[No mar outra vez dende o 03.07.2008]

BOTELHA AO MAR (Setembro-2002)

O TEMPO DE SAM MIGUELINHO. Do arcanjo recebo o meu segundo nome e como o primeiro é tam fundacional, Jesus, e paralisante pois intuo que deve de ser que recebo alento e senso desse Miguel. O meu numen. E procuro-o quando entro numha igreja, às vezes está ali essa figura complexa, o anjo arriba a matar o monstro embaixo. O Sam Miguel é um anjo e mais um demo. Um centauro que se fere a si próprio.

A RELIGIOM É UMHA LINGUAGEM. As religions, as confissons religiosas, som idiomas. Alguns estamos mudos.

A VISOM RESSESSA DA MULHER é caracterizada pola falta do pénis, polo que “nom tem”.
Verdadeiramente, a mulher (XX) é o contrário para nós, os homens (XY): o feminino é exactamente tudo o que nos falta, manca, e nunca jamais teremos, demediados. Elas som donas e nós serventes.

MULHERES QUE FUMAM. Essas mulheres que enchem de fume este bar no que escrevo isto, que fumam degojadas esforçando-se assim em compôr a imagem estereotipada de independência, modernas, mães e esposas que mantenhem e revalidam o seu poder sexual, trabalhadoras capazes…, pessoas esgaçadas por tensons em todas as direcçons…
Estas mulheres que nom me deixam respirar som descendentes sem elas sabê-lo daqueloutras que decidírom imaginar-se livres e donas de si, estas som as netas da Virginia Woolf, da Hanna Arendt, da Mary McCarthy…
Lástima para os meus pulmons que expressem a sua determinaçom botando tanto fume.

CONTRA FRANCO TUDO ERA BOM DE ENTENDER: havia aí diante uns filhos da puta e havia que atacá-los. Mais nada.
Logo aprendemos a matizar, a realidade nom podia ser tam simples, tam maniqueia, buscamos os matizes, procuramos compreender o outro. Aprendemos a ver o contrário nom como um inimigo, mas como um rival, para nom fazer da vida social um campo da guerra civil…Tudo isso.
E agora vai resultar que a realidade é efectivamente umha cousa bem simples: Sharon é um carniceiro assassino, Bush é um imperialista militarista sem escrúpulos, Aznar quer reconstruir a Espanha franquista chamando-lhes deputados aos procuradores em Cortes…

AS NOSSAS TEVÊS EMITEM IMAGENS das máscaras antigas dos israelitas, das haimas domésticas dos kuwaitianos contra a guerra química…, diz que é por se lhes ataca o Iraque.
O certo é que quase nos fam esquecer que o que se está a preparar é o bombardeamento aos iraquianos. Senhores da CNN e demais tevês do império: Tenhem também máscaras e “haimas” antigas as pessoas do Iraque? Ou som monstros que nom precisam?

MUITO GADO É O QUE HÁ. O problema da Galiza é essencialmente o problema gadeiro: há inúmeras ovelhas e muito castrom.

A DISCOTEQUIZAÇOM DOS ESPAÇOS PÚBLICOS. Os meninhos e menihas educados na Espanha de pandeireta e discoteca dos anos oitenta e noventa controlam agora os espaços públicos: o chunda-chunda atroador estende-se por todas as partes, nos supermercados, nos bares…Nom aturam o silêncio, ou o falar, ou o ler. A Espanha é toda ela umha grande discoteca paifoca.

O “DOGMA”. A proposta dos realizadores cinematográficos do grupo “Dogma” é um caminho particular, está bem. Mas como modelo para outros é umha miga umha parvada: Se se prescinde do decorado, da luz eléctrica, das manipulaçons da imagem, de tantas cousas “artificiais”…e por que logo nom prescindir também do guiom, e do argumento? Que os actores improvisem qualquer cousa. E, nessa procura da autenticidade, por que nom prescindir das câmaras? E por que nom prescindir dos actores, que ao cabo som simuladores profissionais? E, já que andamos a isso, por que nom prescindir do director? Ou do filme?
Umha pouca humildade, se fam favor…

O CINEMA É UM SONHO, criado com a imaginaçom, com talento e com recursos dos ofícios artísticos.
Toda a arte é umha humilde criaçom humana, com meios humanos.
E toda a arte é umha mentira, que procura a verdade, mas nom deixa de ser mentira.

“ROAD TO PERDITION”.Os críticos, os realiçadores, falam de que o cinema debe ser assim ou daquela maneira. Fum ver “Road to Perdition” e reconheci-no, aquilo era cinema!
Todo o peso do cinema anterior, da tradiçom, unido ao mundo da imagem de hoje, tambem a TV e a publicidade, todo esse peso vai no filme ajudándo-o a elevar-se e a ir aéreo. Cando o peso do passado vai bem asimilado e forma parte de um, e um dourado lastre que ajuda a voar.

E PODE ALGUÉM SER UM ESCRITOR, UM INTELECTUAL…sem transformar-se num clichê prefigurado e previsível, sem desaparecer o indivíduo sumido na caricatura? Nom sei.

DESDE QUE PERDES A INOCÊNCIA É TAM DIFICIL SER REAL…

SER INTELECTUAL É SER UM LUTERANO: um procurador da verdade através da polémica perpétua. Cos demais, co demais, com um propio.
Um caminho de liberdade, um caminho de agonia diabólica também.

A GALIZA É UM PARADOXO PARALISADO. O paradoxo é dinâmico e criativo, mas a Galiza é tam paradoxal, tam atravessada por contradiçons, que fica bloqueada.

O MEU PAÍS NOM DÁ OPORTUNIDADE NENGUMHA E ASSIM SEMPRE TEMOS UMHA OPORTUNIDADE: Logo de vinte anos a publicar e vinte libros publicados já acreditávamos que tínhamos um lugar feito, um caminho andado visível…e de repente desaparecem-nos, desaparecem os nossos livros das páginas dos jornais, das listas, omitem o nosso nome das relaçons de autores assistentes a actos literários…, e nom passa cousa, nom ocorre nada. E assim a gente, logo de cair, purificada pola destruiçom, emerge renovada e reinicia um ciclo, volto aos começos. E escrevo onde nom mo impedem, na Internet, nestas páginas, nas páginas do David de Ugarte (
MAS FICA O OCEANO. O océano e morte e mais e bálsamo. E a curaçom do mundo.

[No mar outra vez dende o 05.01.2008]

Botelha ao mar (Julho-2002)

BOTELHA AO MAR (Julho-2002)

TÁXI EM MADRID. Falo ao telefone celular com a casa, em galego. Posteriormente, logo de ouvir-me falar, o taxista pergunta-me se som italiano. Esta Espanha, este Madrid… Que Espanha é esta que nom mudou, para a que continuamos a ser estrangeiros?

OS ESCRAVOS PRETOS, arrancados da sua terra africana perdêrom-no tudo, também o idioma. E que lhe dérom eles ao inglês norte-americano? Um tom profundo e grave, como se essa gente levasse um continente inteiro dentro.

A SÍNDROME DE DOWN. Curiosamente a salvaçom do nosso mundo objectal, frio e cada vez mais perdido seja algum segredo que ocultam e portam essas pessoas que têm a síndrome de Down, esses “mongolóides” : talvez eles, tam carinhosos, tam meninhos, tam carnais e ternos saibam o que nós cada dia ignoramos mais.

É CERTO, NOM PODO CONCEBER JESUS COMO FILHO DE DEUS. E porém a sua mensagem é completamente distinta a todas, única. E mesmo, divina.

SANTIAGO-VIGO EM CAMINHO-DE-FERRO: Som 100 km e a minha viagem durou 1 hora e 41 minutos!

ESTA GALIZA É UM PAÍS PARA DESOCUPADOS, aposentados e ânimas en pena. A gente em idade de trabalhar continua como sempre a buscar a vida fora. Todos o sabemos ainda que os meios de comunicaçom o ocultem.

ESTE PAISINHO VENDEU A SUA ALMA À MORTE. Os galegos escolhem presidente um ministro de Franco ( porque Franco nom se apresenta às eleiçons) e afundem-se com ele sem agonia. Gozosamente emerdados todos.

ESCUITO OS FOTÓGRAFOS DEFENDEREM O FILME FACE À FOTO DIGITAL. Falam com ternura do “romantismo” da foto na que eles se formárom, do seu “lado humano”. Compreendo a sua razom. Porém tampouco esqueço que fôrom eles que matárom a pintura com as suas máquinas, entom tam modernas.

LUCIEN FREUD: É o pintor do século XX.

AEROPORTO. Dous músicos pobres e viageiros: um acordeonista e um violinista.
O acordeonista solta um acorde em direcçom a um meninho viageiro, o meninho logo atende ao reclamo. Outro acorde e um sorriso do músico. Outro acorde e o meninho achega-se e detém-se. O músico toca agora para ele, o seu companheiro, o do violino canta algo ininteligível. Assim, de graça, um obséquio para um meninho qualquer.
E quem sabe, se calhar o flautista de Hamelin nom era tam mau.

AS NOSSAS CIDADES ESTÁM ESTÚPIDAS e os aeroportos som hoje os cruzamentos de caminhos, os lugares onde ainda podemos cruzar camponeses, músicos de feira mágicos, ou o demo com as suas seduçons

E QUE LEMBRANÇAS HAM FICAR NESSA CABECINHA LOIRA, entre as imagens das “Play-Stations” desses dous músicos mágicos e generosos que agora se erguem e marcham para algures chamados polos alto-falantes do aeroporto.

BEETHOVEN. A sua surdez, o seu isolamento do exterior, o seu encerro. A sua surdez fijo-o prescindir do público, dos demais, e isso deu-lhe grande liberdade.
A surdez de Beethoven prefigura a arte moderna: livre, caprichosa e isolada dos demais.

CONSIGNA SILVESTRE: É preciso “piratear” a roupa. Inverter o processo que figérom os proprietários das “marcas” que nos vestem. Colher um traje de Armani, Adolfo Domínguez, e ir junto a um alfaiate, umha costureira, e fazer muitas cópias. Sem marca nengumha, libertar-nos da marca, das marcas.

PAÍS ABUNDANTE: Leio num jornal : “40% das operaçons de cirurgia estética na Galiza som para reduzir peito”. (Ai, essas estrangeiras todas, se comessem mais caldo nom tinham logo que andar pondo silicones!)

[No mar outra vez dende o 11.07.2007]

Botelha ao mar (Abril-2002)

A LER O “DIÁRIO” DO ANDRÉ GIDE: umha inteligência aguzada, sensível, complexa, paradoxal, aberta…Tenho medo a pensar que isso nom pode ser bom para o escritor de ficçom. A inteligêcia extrema afoga o ímpeto inocente, intuitivo, que devemos esforçar-nos em conservar. E a compreensom racional imediata impede que atopemos outras compreensons, máis complejas e fondas.

 

A LER UM LIVRO SOBRE IMPOSTORES (“Impostores”,Sarah Burton). Tem de haver muita frustraçom e muita tristeza na vida de um para decidir-se a fazer-se outro, para fazer-se impostor.

 

OXALÁ UM SUPERVIVENTE DE AUSCHWITZ, UM SÓ, só um acuda às povoaçons em que viviam os palestinianos expulsos das suas terras, povoaçons agora em ruínas, e ali dê umha voz: “Nom, isto é o único que os judeus, sejam de Israel ou de qualquer parte, nom podemos cometer! Sharon e quem o apoie é culpável!”

 

QUAL CRIME DE SHARON E OS SEUS É MAIOR? Exterminar essas pessoas palestinianas cruelmente ou liquidar moralmente Israel, arrastando com ele os judeus do mundo?

 

SABEM OS HABITANTES DE ISRAEL O QUE O SEU EXÉRCITO FIJO AOS PALESTINIANOS? Daquela som culpáveis moralmente com o seu governo. Ocultárom-lhes os meios de comunicaçom esse crime? Daquela estes som os primeiros culpáveis.

 

ADORNO PREGUNTOU-SE SE ERA POSSÍVEL A POESIA LOGO DE AUSCHWITCH. Os tanques israelitas e os helicópteros norteamericanos “Apache” bombardeárom a casa do poeta palestiniano. É umha resposta como qualquer outra.

 

OXALÁ ISRAEL CONTEMPLE O DESFEITO, os hospitais e escolas sistematicamente arrasadas, os documentos roubados para que os palestinianos careçam de títulos de propriedade da terra, os expedientes académicos roubados para que nom tenham titulaçons e nom podan sair de mao de obra ruda, os condutos da água rotos, os tendidos eléctricos cortados…Oxalá contemple isso e pida perdom, repare, cure o dano feito. Oxalá faga o que deve.

 

ISRAEL CONDICIONA TODOS OS JUDEUS DO MUNDO, e agora arrasta-os na sua deriva histórica. Do mito civil com que fundaron o estado de Israel, umha utopia social, à ocupaçom dos territorios palestinianos e Jerusalém. E assim ficou ali diante o sonho bíblico, o povo eleito e a terra prometida. Mas nom é possível fingir inocência, essa terra tinha e tem dono, esses expulsos, esses refugiados. Agora o pacto com Iavé é o pacto com os EE.UU. Os mitos às vezes ofuscan e arrastam os povos.

 

ACTORES E ESCRITORES. Ambos exibem-no todo. Cousas contrárias, caminhos contrários, mais ispem-se. Ser actor e mais escritor havia ser cousa insuportável, um faria-se transparente.

 

FAGO O LANÇAMENTO DUM LIVRO, (“Ambulancia” na ediçom castelhana), e outro (“Trece badaladas”, em galego, que em Setembro será “Trece Campanadas” en castelhano) e fago umha série de entrevistas, e logo outras muitas, e passo $o ano a falar dos livros, a explicá-los, analisá-los…
Shakespeare explicou-se tanto sobre algumha das suas obras?
Nom, nom lhe fazemos bem à obra falando tanto dela. Nem nos fazemos bem a nós como escritores com esta vida um pouco estúpida a cavalo de ser escritor e também actor, ou cousa assim.

 

INDIGÊNCIA EXTREMA. Um home mal-toca umha frauta na rua pola esmola. É tam tam pobre que nom tem nem cançons: toca “Chiquitita” de Abba.

 

O NOSSO CORPO é dos nossos devanceiros, um leigado genético da espécie. Nada mais é nosso o olhar.

 

OUTRA VOLTA AQUI NA JANELA DO AVIOM, o meu olhar sem brilho, céptico, ja nom aguarda surpreesas: umha nuvem que assombre, um horizonte luminoso que pasme…

 

NAMOREI-ME DA AMELIE de “Amelie”. Hai alguém mais…?

 

E PASSAMOS A VIDA DE AQUI PARA ALI A FAZER O RIDÍCULO. Só a morte nos dá umha imagem mais serena e digna. Mas, ai, estamos mortos.

 

[No mar outra vez dende o 15.01.2007]

Botelha ao mar (Marzo-2002)

BOTELHA AO MAR (Março-2002)

SHARON: Sabra e Shatila.Palestina toda.

O SARAMAGO NOM TEM RAZOM?, é certo que o que fai agora o estado israeli aos
palestinianos nom é o que fijo daquela o estado nazi aos judeus. Mas, que
cousa é logo? Haverá que lhe atopar um nome novo, algum nome terrível
também.
Nom fagam escándalo da comparança que fijo o Saramago, melhor pensem no que
estám a fazer, tam cruel.Se isto nom é tam terribel, cuanto menos terribel?
Que alguem mida a dor palestina, o peso e o prezo desa carne como pedia o velho Shylock.
E que alguem lhe diga logo ao mundo a cuantia dese horror que contemplamos en directo.Facéndonos cúmplices dessa obscenidade.

O SUPERMACHO é paradógico: o verdadeiro herói de guerra é o que regressa
dela, o cavaleiro mutilado.

SER FAMOSO, viver a experiência da fama é umha forma de loucura. Umha forma
de autodestruiçom.

TATUAGENS sem significado. Essa rapariga na praia tem o lombo tatuado com
debuxos que nom significam nada nem tenhem um sentido concreto para ela.
Escolheu-nos no repertório que lhe oferecêrom na tenda de tatuagens.Puramente decorativos.
Nom som signos de ter sido iniciada a nada ou de pertencer a nengumha tribo. Ou si,
de pertencer a um rebanho de servos do consumo, gado humano. Nisso nos temos
transformado.

SEN DEUSES, TRIBU, NAZOM, IDEOLOGIA,SONHOS…, so temos o corpo. Belizcamos o corpo para
constatar que existimos. O corpo, soinho, é toda a nosa identidade. Reducidos ao corpo.

NUM ENTERRAMENTO, a gente dá-se a mao, abraços, beijos. A morte reforça os
vínculos entre os vivos. Seguimos vivos, sobrevivemos ao morto, demos
graças e alegremo-nos.

NAS VIAGENS HEROICAS, na Odisseia, na Procura do Graal, o herói procurava
algo, o caminho de volta a casa, umha cura milagreira. Que é o que procurava
o Dom Quixote? É o primeiro contemporáneo, caminhou sem caminho e sem rumo.

A IDEIA JUDIA E LOGO TAMBÉM CRISTÁ da divindade. Pai, Filho, e logo o
Espírito Santo. A dialéctica Pai/Filho entendo-a bem, o “Espírito Santo” já
nom pode ser entendido, deve ser compreendido, pois compreende, concilia e
reconcilia o Pai e o Filho. E logo o Espírito Santo nom será a Senhora?

QUE FAI O RELÓGIO DE SOL pola noite? (Governa-se pola lua)

NA CONSULTA DO MÉDICO, umha mulher vai debulhando a sua vida, cada trabalho,
cada filho, todos os seus méritos e os dos seus filhos: trabalhou,
estudárom, trabalhárom, nom bebiam, nom fumavam. Ao fim relata o drama:
morreu-lhe umha filha e mais um neto, e umha nora também. Antes “era
católica como todos”, agora nom crê em nada. Está con “três tratamentos para
o coraçom”.
Dous homens, um a cada lado, que aguardam também a sua vez do médico,
contam-lhe outros casos muito piores por consolá-la: homens sem pernas,
mutilaçons. “A vida é assim”.
Com toda a lástima que nos dá, impom-se umha evidência: é umha pelma,
umha prosma. E segue, e venha e dá-lhe.

A FOTO DOS OLHOS. Tropeço com um amigo fotógrafo a quem nom via desde havia
anos, “¡Quanta alegria!”. Também el tinha desejo de ver-me, precisamente
está a preparar umha série de retratos de gente, quer retratar-me, mas devo
tirar os lentes escuros, quer retratar somentes o olhar.
Bem, eu entendo a sua lógica, mas precisamente é o que quigera
proteger, polo mesmo motivo que el a quer atrapar e logo mostrar ao mundo,
justamente polo mesmo motivo.

A ARTE CONTEMPORÁNEA (escrevim-no hai anos, já nom o lembrava) é
INEVITAVELMENTE PORNOGRÁFICA. Seguindo o carácter do nosso tempo,
depredador, desmitificador, desvelador, que odeia e destrói toda aura, toda
sombra e todo segredo. A arte do nosso tempo é feroz e reduze-se ao que em
cinema chamam “primeiríssimo plano”. Todo se baseia na ideia de que todas as
cousas podem, e sobre todo deben, ser vistas, atrapadas, cousificadas, objectualizadas.
Bem, quem sabe, quiçais precisamente por isso, nos protejamos desse olhar
esculcador, desse olhar feroz da cámara contemporánea.
Nom posarei para essa foto do meu olhar, arrependo-me muito de tê-lo
feito hai anos.É duro ser retratado, a parte máis dura do trabalho.

JÁ A NINGUÉM INTERESSA O RETRATO TRADICIONAL, aquel em que a pessoa constrói
a sua personagem, rictus sério, grave, ou risonho, a mao assim ou assá,
vestido disto ou daquela maneira. Permitir que um tente ser quem quer ser,
esse jogo da identidade pessoal. Hoje o retratista é selvagem, quer traspassar,
vulnerar, cravar a borboleta com alfinetes no painel de cortiça na parede.

O ULTIMO, DERRADEIRO, CONCERTO DO JOHN COLTRANE foi no “Center of African Culture” en New York
e chamouse “Roots of Africa”. E logo, a que chegou a aquela sua casa de volta, rematou a sua viagem e morreu.
Asi e todo, ninguem chega enteiro á fim da viagem, a sua interpretaçom da fermosa “My favourite things” que antes fijera tam delicadamente foi aquel dia torturada e rota.Um chega ao final roto.

SHARON: Sabra e Shatila.Palestina toda.

[No mar outra vez dende o 26.12.2006]