BOTELHA AO MAR de Suso de Toro

15 Abril 2002

Botelha ao mar (Abril-2002)

Publicada en: Botelhas ao mar por botelhaaomar ás 6:38 pm

A LER O "DIÁRIO" DO ANDRÉ GIDE: umha inteligência aguzada, sensível, complexa, paradoxal, aberta...Tenho medo a pensar que isso nom pode ser bom para o escritor de ficçom. A inteligêcia extrema afoga o ímpeto inocente, intuitivo, que devemos esforçar-nos em conservar. E a compreensom racional imediata impede que atopemos outras compreensons, máis complejas e fondas.

 

A LER UM LIVRO SOBRE IMPOSTORES ("Impostores",Sarah Burton). Tem de haver muita frustraçom e muita tristeza na vida de um para decidir-se a fazer-se outro, para fazer-se impostor.

 

OXALÁ UM SUPERVIVENTE DE AUSCHWITZ, UM SÓ, só um acuda às povoaçons em que viviam os palestinianos expulsos das suas terras, povoaçons agora em ruínas, e ali dê umha voz: "Nom, isto é o único que os judeus, sejam de Israel ou de qualquer parte, nom podemos cometer! Sharon e quem o apoie é culpável!"

 

QUAL CRIME DE SHARON E OS SEUS É MAIOR? Exterminar essas pessoas palestinianas cruelmente ou liquidar moralmente Israel, arrastando com ele os judeus do mundo?

 

SABEM OS HABITANTES DE ISRAEL O QUE O SEU EXÉRCITO FIJO AOS PALESTINIANOS? Daquela som culpáveis moralmente com o seu governo. Ocultárom-lhes os meios de comunicaçom esse crime? Daquela estes som os primeiros culpáveis.

 

ADORNO PREGUNTOU-SE SE ERA POSSÍVEL A POESIA LOGO DE AUSCHWITCH. Os tanques israelitas e os helicópteros norteamericanos "Apache" bombardeárom a casa do poeta palestiniano. É umha resposta como qualquer outra.

 

OXALÁ ISRAEL CONTEMPLE O DESFEITO, os hospitais e escolas sistematicamente arrasadas, os documentos roubados para que os palestinianos careçam de títulos de propriedade da terra, os expedientes académicos roubados para que nom tenham titulaçons e nom podan sair de mao de obra ruda, os condutos da água rotos, os tendidos eléctricos cortados...Oxalá contemple isso e pida perdom, repare, cure o dano feito. Oxalá faga o que deve.

 

ISRAEL CONDICIONA TODOS OS JUDEUS DO MUNDO, e agora arrasta-os na sua deriva histórica. Do mito civil com que fundaron o estado de Israel, umha utopia social, à ocupaçom dos territorios palestinianos e Jerusalém. E assim ficou ali diante o sonho bíblico, o povo eleito e a terra prometida. Mas nom é possível fingir inocência, essa terra tinha e tem dono, esses expulsos, esses refugiados. Agora o pacto com Iavé é o pacto com os EE.UU. Os mitos às vezes ofuscan e arrastam os povos.

 

ACTORES E ESCRITORES. Ambos exibem-no todo. Cousas contrárias, caminhos contrários, mais ispem-se. Ser actor e mais escritor havia ser cousa insuportável, um faria-se transparente.

 

FAGO O LANÇAMENTO DUM LIVRO, ("Ambulancia" na ediçom castelhana), e outro ("Trece badaladas", em galego, que em Setembro será "Trece Campanadas" en castelhano) e fago umha série de entrevistas, e logo outras muitas, e passo $o ano a falar dos livros, a explicá-los, analisá-los...
Shakespeare explicou-se tanto sobre algumha das suas obras?
Nom, nom lhe fazemos bem à obra falando tanto dela. Nem nos fazemos bem a nós como escritores com esta vida um pouco estúpida a cavalo de ser escritor e também actor, ou cousa assim.

 

INDIGÊNCIA EXTREMA. Um home mal-toca umha frauta na rua pola esmola. É tam tam pobre que nom tem nem cançons: toca "Chiquitita" de Abba.

 

O NOSSO CORPO é dos nossos devanceiros, um leigado genético da espécie. Nada mais é nosso o olhar.

 

OUTRA VOLTA AQUI NA JANELA DO AVIOM, o meu olhar sem brilho, céptico, ja nom aguarda surpreesas: umha nuvem que assombre, um horizonte luminoso que pasme...

 

NAMOREI-ME DA AMELIE de "Amelie". Hai alguém mais...?

 

E PASSAMOS A VIDA DE AQUI PARA ALI A FAZER O RIDÍCULO. Só a morte nos dá umha imagem mais serena e digna. Mas, ai, estamos mortos.

 

[No mar outra vez dende o 15.01.2007]

Chuzame! chuzame -

14 Abril 2002

BOTELHA AO MAR (Maio-2002)

Publicada en: Botelhas ao mar por xabre ás 2:56 pm

BOTELHA AO MAR (Maio-2002)


PRECISAMOS DA MÚSICA BRASILEIRA, precisamos vitaminas para a alma.

A FAMA: A hipóstase da imagem própria.

OS ALPES. Pensei que já nom, mas volvem-me a assombrar, som tam novos! Pura mocidade da terra.

O ESCRITOR TRABALHA com dous únicos materiais, a linguagem e o narcisismo.

QUEM SE MOSTRA DE FRENTE E ESPIDO só será visto depois de que esteja morto e haja a distáncia do tempo.

O ESCRITOR NOM ESCREVE PARA O PRESENTE, e se escreve assim engana-se. A obra literária vive num tempo próprio, que nom é presente, nem futuro nem passado. Num tempo sempre actual (mas nom presente).

BUSH E SHARON levam-me a procurar no quiosque de volta a "New Left Review". Fam-nos lembrar cousas importantes. De nós e do mundo.

NO PORTO DE HAMBURGO, "Restaurante Galego. Portugiesische Spezialitaten". A gente que anda por aí, polo mundo, compreende o essencial e perde o medo ás fronteiras e aos preconceitos enfermizos.

EM KIEL. Por entre as nuvens assoma o sol inesperado. Bálticos de pele fina a untar-se de crema protectora sob este sol imaduro de Maio. A pele tam fina da inocência.

HAI QUE ALIMENTAR generosamente o orgulho cada dia. E à vaidade meter-lhe umha boa malheira também cada dia.

UM DESSES PARTIDOS DE FUTEBOL DO SÉCULO, desses que é quase obrigado ver, que os fanáticos quigeram que imobilizasse a todo o mundo perante as pantalhas, as ruas desertas como se tivesse caído umha bomba de neutróns.
Porém, hai gente pola rua, aínda ficam seres vivos. Ha supervivintes. Mesmo os pássaros estám a cantar ignorantes do encontro transcendental que havia paralisar o mundo.

ISSO SIM, pola noite até à madrugada demonstram que eles, os futeboleiros, som os donos da rua. E dam berros e ouveam e fam soar os claxons dos autos para que nom durmamos os demais.

NUM PARQUE DE SALAMANCA um homem olha-me passar fitando com um olhar de Leopoldo María Panero. Talvez a gente tenha olhares comuns e partilhados.

EUROPA, É CERTO, ESTÁ AVELHENTADA, e como consequência também infantilizada.
A prolongaçom da vida trouxo como consequência a prolongaçom da infáncia e juventude, da imadurez.

MENINHO NO TREM. Tenho nas maos um poemário do George Trackl, "No escuro espelho da minh' alma/ Há imagens de mares nunca sentidos", mas um meninho que durmia esticado numha cadeira do comboio aí diante, canso de tanta viagem, acordou e ofereceu-nos ao mundo a sua carinha de rato curioso e tenho de encartar o livro. De súbito pareceu-me falso lêr palavras sombrizas com ele ali ao lado, tam lindo e tam luminoso.

UMHA FOTO DO POETA: O Trackl sentado numha cadeira do estúdio fotográfico da Viena antiga, a olhar para a frente com o sobrancelho francido. Contra o fotógrafo, contra o que o contempla? Contra quem fijo essa foto o poeta?

[No mar outra vez dende o 14.04.2007]

Chuzame! chuzame -

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