Category Archives: Botelhas ao mar

Botelha ao mar 3 (Julho-2000)

O CARALHO DO VAN MORRISON, nom hai disco em que nom tenha duas, três músicas que emocionam. Tam difícil emocionar. E ele fai-no desse jeito em que toca o lacrimal mais nom fai descompor o gesto. Elegáncia, chama-se. Claro que hai um passo além, que é a tragédia, quando o ríctus rompe no pranto. A elegáncia é umha elevaçom, a tragédia é o descenso que conduce à grande altura, à grandeza. Assi e todo, que faltos nom estamos da elegáncia nesta puta vida desportiva e vulgarmente banal.

A BELEZA NORTEAMERICANA. Havia tanto tempo que nom tinha nem tempo de ir ao cinema. E fum, vim essa “American beauty” (na Espanha já deixarom de traduzir os títulos dos filmes, nom é que a gente saiba moito mais inglês que hai uns anos, é o gosto por aparentar que se sabe). Nom estivo mal, mais nom pudem deixar de compará-la com aquele outro filme dum director chinês-americano, como é que se chama?, que na Espanha foi distribuída sob o título de “Tempestad de hielo”, que maravilha. O que este filme quijo dizer com pequenos truques e efectismos já o dixera aquele dum modo radical, terminante, terminal. O niilismo da sociedade norteamericana. Sei que vamos para isso, cara a um esvaziamento absoluto das nossas vidas, de nós. Teremos de todo e estaremos cheios do nada. A superabundáncia de significados conduz à desapariçom do sentido. O ter absolutamente de todo conduz ao Nada absoluto.

DANÇA DE DEFUNTOS. Umha gravaçom dumha actuaçom do Jimi Hendrix acompanhado de Jim Morrison (e Jonhy Winter e Buddy Miles). Vozes e guitarras dos mortos. O rock é o hino da juventude autodestrutiva, enquanto os seus companheiros de geraçom matavam e eram matados no Viet Nam outros, na retaguarda, autodestruíam-se. A violência, a doença mortal da sociedade norteamericana, canta hinos de guerra e rock de suicidas. Em geral, a juventude é um tempo terrível e mortal.

NACIONALISTAS. Num suplemento cultural dum jornal madrilenho falam dous intelectuais, Félix de Azúa e Jon Juaristi, sobre “os nacionalismos”. Nom se referem aos nacionalismos dos estados, o nacionalismo espanhol, francês, norteamericano, etc., nom; referem-se aos que obsessionam tanto bastante gente alá em Madrid, o vasco e o catalám. Os dous varons som críticos com nacionalismo catalám e vasco respectivamente e desde logo coincidem os dous em que tenhem razom: som nacionalismos cheios de defeitos e para além disso errados pola sua própria natureza nacionalista.

Um já nom aguarda da imprensa madrilenha que algum dia discutam aspectos odiosos do nacionalismo espanhol, que também os tem; fam como que nom existe. Sequer quando tratam dos outros nacionalismos, esses que chamam “os nacionalismos”, podiam chamar gente que pensasse diferente. Ainda que unicamente fosse para que parecesse um debate e por nom aborrecer a gente. Ai, os prazeres onanistas da ideologia.

CONDECORAÇOM MILITAR A UM ALCAIDE. O exército espanhol acaba de condecorar o
alcaide da Corunha por defender a ideia de Espanha. O actual alcaide corunhês é o único político em activo que nom aceita a Espanha nascida da Constituiçom que reconhece a existência das nacionalidades históricas. Diante disso ele defende a Espanha “de los Reyes Católicos” e fai em falta que os meninos de hoje conheçam Guzmán el Bueno. Fai em falta a Espanha da nossa infáncia, a do ditador sem coraçom. E isso é o que o Exército premia. Nom é para chorar, é para indignar-se. Esse exército mudou, mais alguns chefes nom mudárom.

TAMPOUCO OS BISPOS MUDAM. Nom pedem perdom nem desculpas por alentar a sublevaçom militar, a terrível Guerra Civil que abençoarom como Cruzada, a repressom da posguerra, a ditadura. O episcopado da Igreja Católica Espanhola segue a ser de direitas. Ponhem difícil o ser católico.

DEIXEMOS OS FASCISTAS e lembremos os democratas que fôrom assassinados por sê-lo. Quase que nom sabemos ainda os seus nomes e nom sabemos os nomes dos que os assassinárom. Leiamos, por exemplo, um livrinho, as memórias da corunhesa Syra Alonso que narra a infámia e os nomes das vítimas e dos infames na sua cidade.

BUSCO UM DISCO DE VIOLETA PARRA desde hai anos. Nom o havia, descatalogados todos, até hai uns meses nos que editárom umha antologia. Pergunto por ela umha e outra vez na grande tenda do meu bairro e nunca o tenhem, nom dá chegado, parece. Nom é certo que o mercado nos ofereça de todo, oferece moito do mesmo mais se eu quero escoitar Violeta Parra, Atahualpa Yupanqui, nom podo. O mercado nom me permite isso, está fora da moda. Eu estou fora da moda.

THERAPY? Contodo um atopa de quando em vez cousas interessantes no mercado, numha loja de discos escoitei umha música e comprei-na, era o segundo disco de “THERAPY?”, moi bons. A atracçom do punk, a atracçom da autodestruiçom, do sinistro, do escuro. Quixéramos poder jurar que Bach é a nossa Bíblia mais umha e outra vez aflora o turbo que vai em nos.

UM ESCREVE sempre sobre si próprio. Também quando escrevo contra algo escrevo contra umha parte de mim, contra mim próprio.

DOAÇOM DE ÓRGAOS. Num centro de saúde, um cartaz: o rosto dumha menina (como exprimir com palavras o rosto dumha menina?), debaixo di “Vive graças a um transplante”. E bem. Um gosta de pensar que quer que o enterrem inteiro, voltar inteiro à terra e cessar. Volver a formar parte inerte do mundo, no fim religados. Nom obstante nom está mal a ideia de que umha parte de um continue a existir dentro de alguém, formando parte doutra vida. Isso é religaçom também.

LIVROS E FILMES QUE FAM CHORAR. o filme baseado na obra de John Irving, Príncipes de Maine, fai chorar. Um vai a vê-la e chora e chora. E sai da sala melhor pessoa que quando entrou. Bençons para John Irving. A boa arte que nos fai melhores. A arte nom é nada se nom vai fecundada por essa dor, se nom trata das cousas que importam ou que devem importar.

TEM CERTA GRAÇA O PATRIOTISMO QUE TENHEM ALGUNS “PROGRES” ESPANHOIS COM A ILUSTRAÇOM E A REVOLUÇOM FRANCESA. Sempre opondo a sua Racionalidade à Irracionalidade do Romantismo e dos sentimentos nacionais, seica. E contodo eu nom vejo em toda a História de Ocidente umha irrupçom tal do irracional na vida social.

“Audácia, audácia e mais audácia” berrava Dantón e esse pulo levava à guilhotina, sangue e sangue derramado implacavelmente. Nom houvo gente mais exaltada, irracional, perigosa, patriota, romántica, que essa que defendia a Racionalidade. Os filhos do displicente Voltaire.

Botelha ao mar 2 (Maio-2000)

ANDAM COM O CENTENÁRIO DE BUÑUEL às voltas. Que ganhas de andar com os mortos a marealos. Um artista segue vivo em tanto que artista ainda que morresse se a sua obra segue a actuar sobre a gente, mas quando che fam estas pompas fúnebres centenárias unicamente querem foder-te e dissecar-te. E Buñuel segue vivo. O conto é que volto a ver um fotograma daquele “Cam andaluz” no que um homem corta limpamente com umha navalha de barbear o globo do olho a umha mulher.

Parece-me que entendo bem o jogo da provocaçom, da perturbaçom, e nom digo nada. Unicamente que, mais umha vez, é o homem o que viola, tortura, ofende, destrui o corpo da mulher.

Já sei, já sei, a arte é o terreno da liberdade, também quero isso para mim; também sei que eram outros tempos e nom havia esta nova consciência que por primeira vez na história da nossa espécie fai que aprendamos a ver o mundo com os olhos das mulheres. Nom julgo neste caso, nom julgo.

Mas hai pouco lim umha reportagem sobre as mulheres albanesas e kosovares sequestradas, compradas, violadas, torturadas e marcadas para ser prostituídas na Europa, nom deixo de interrogar-me sobre a masculinidade e quando vejo essa imagem vejo todo isso. Vejo mal? Se calhar.

POR CERTO, SOBRE OS CENTENÁRIOS E OUTRAS PERVERSONS: Os escritores galegos temos, como sonhou Andy Warholl para todo o mundo, o nosso ínterim de glória garantido. O dia das Letras Galegas de cada ano vai dedicado a bons e maus escritores por igual, mesmo vai dedicado a persoas que nom eram escritores apenas. Eu renuncio a ele, se se me permitir. A Glória do artista, a memória, é ganhada a pulso, se nom conseguim umha obra literária que mereça ser lida logo de que eu morresse, pois fracassei. E quero ter direito ao fracasso e ao esquecimento piedoso.

E já nom comento o aspecto que tem a celebraçom de adecentar o defunto para o mundo. Nem quero que o mundo saiba das minhas misérias, som minhas, o mais meu, nem quero que me embalsamem pulcramente para dizer que fum um santo (som un cabronazo do caralho). Um compreende perfeitamente o que foi o Dia das Letras para umha cultura assovalhada, mas espero que se compreendam também estas raçons persoais. Ao cabo, um algo terá de dizer sobre os seus funerais. Digo eu.

Assi pois, fica escrito, nom compito por esse presente mortuário, que nom haja Dia das Letras Galegas dedicado a mim.

E PERDO-ME TODAS AS HONRAS, pois já tenho assinado desde hai uns quatro anos um escrito no que afirmo que nunca entrarei em nengumha Academia das Letras e essas cousas. É preciso que os escritores de por aquí esqueçamos os sonhos burocraticos e comecemos a sonhar com outras cousas, coa gloria se calhar.

O VARREDOR PASSA A CANTAR; já quase ninguém canta. Talvez a de varredor seja a profissom ajeitada para ser feliz.

Shakespeare fijo que os filósofos fossem príncipes, talvez Buda fosse um varredor municipal.

UM GUIA TURÍSTICO A EXPLICAR OS MONUMENTOS NA PRAÇA DO OBRADOIRO em galego. Estranho-me todo. A explicaçom, os turistas som portugueses.

Tanto lhe custa a algumha gente aceitar esta evidência? Tanto lhes doe que preferem evitar que nos poidamos aproximar e entender? Eu nom os entendo a eles.

Ou se calhar sim que os entendo, nom querem umha naçom senom quatro putas deputaçons e províncias povoadas de “almas rendidas” (assim chamaba o Ortega aos galegos). E nom querem umha cultura senom umha culturinha.

Umha cultura está normalizada e vive no mundo, medindo-se com as outras culturas. Umha culturinha é um binquedo mui manejável e ali qualquer é o rei.
Merda para as culturinhas.

OS SALTOS: Ninguém cavila o bastante nos saltos, no que em espanhol se di tacons. Mas os saltos transformam a gente, sobretodo as mulheres. Um par de saltos provoca mudanças na identidade persoal. Umha mocinha ou umha mulher pequena pom um bom par de saltos e transforma-se numha mulher imponente, ou ela ve-se assim. O salto muda-lhe a figura ressaltando o que ela quere ressaltar, dá-lhe um andar torpe que semelha garboso e dá-lhe altura. Suponho que dá todo isto e compreendo a tentaçom de levar saltos. Hoje todos nos trabalhamos a identidade persoal a pulso. Viver está duro de caralho, claro que também tem as suas alegrias.

OS ACTORES. Aqui os estám, antes dum acto social, dumha representaçom, dumha gala, qualquer ocasiom da vida da profissom…, barulheiros e como meninos. Provavelmente é-lhes precisa essa como leveza, como puerilidade. A disponibilidade dos rapaces para o jogo para logo encarnar na cena o mais negro, o mais turbo ou o mais elevado; o mais elevado.

CADA DIA ESTAMOS MAIS VACIOS, baleiros de nós, de todo. E máis cheos de ruído. Cada dia é máis doado ser estrela mediática e máis difícil ser artista. Cada paso máis difícil estar cheo de un propio, cheo do mundo. Ou sequer ter unha pouca substancia.

Este é o tempo da xente leve, incolora, inodora e insípida. O meu puto tempo.

Botelha ao mar 1

UM TIPO C0M TRES TELEFONES MOBEIS:

Perdeu o seu e acaba de achá-lo. Mentres tanto ele comprou um novo e a sua namorada, sem sabê-lo, deu-lhe outro. Agora anda com três e recebe chamadas polos três. Anda um bocado desconcertado alerta ás chamadas e aos bolsos. E os bolsos da chaqueta estám a ceder.

“QUE COUSA vê, Jerónimus Bosch, o teu olho atónito?”

(D.Lampsonius)

A OPERA é TRANSEXUAL.

Tantos anos, desde crianças, a trabalhar a máscara da virilidade, a cultivar a figura e o timbre “masculino” da voz…, e de repente reparas em que estás a cantarolar umha ária da gueixa da Madanme Buterfly, ou da Penélope do “Retorno de Ulise in Patria”, ou da Dido de Purcell…, buscando na tua gorja um registro de mulher rendida.

A ópera é verdadeiramente perturbadora da nossa identidade. Nom é estranho que um macho como é devido a despreze. Puta ópera.

A ANARQUIA POLO CHAN

Um “yonki” preso numha mirada psicótica, loce umha camisola preta com um grande “A” dentro dum círculo enorme. Que desconcerto o dos velhos anarquistas, laboriosos, sonhadores e austeros, se vissem esta humanidade tam lastimada e lastimosa a anunciar o que foi a súa utopía. O sonho deriva cara o pesadelo. E a esperança em niilismo.

ACABO de saber que os meus apelidos Toro e Santos formam o Touro Divino, o Dioniso. Um segue avançando no autoconhecimento pola palavra.

ALGUÉM LEVANTA UMHA CASA, grande e boa, com finca. Chanta nela um hórreo, um cruzeiro entre o céspede. Nem o hórreo vai guardar grao nem o cruzeiro santifica ou protege cousa nengumha.

Esta espécie de aparente saúdo respeitoso ao “tradicional” nom é mais que insulto ao trabalho e à piedade, pois nada mais serve para anunciar que o triunfal proprietário já nom tem que trabalhar na terra, como na sua infáncia ou como os seus pais, e que também nom crê em religiosidades de gente supersticiosa. Ele e mais a sua esposa e filhos já bebem Coca-Cola.