Botelha 7 (Abril 2001)

GARRAFA AO MAR 7

MOBY, O PELADO ARTISTA INGLÊS, em cada disco um panfleto a favor do
vegetarianismo, umha crítica da hipocrisia da moral conservadora e, ao tempo,
umha proposta para viver com valores. E que estupendas peças de música as
deste romántico de pistas de baile.
O Reino Unido, apesar das pragas, epidemias, de ser o sacristao do
imperialismo dos EUA, da sua desorientaçom histórica e o seu afundimento
moral, sempre nos surpreenderá com as suas individualidades. A liçom dos
británicos é a da singularidade. E aí estám os seus artistas, filhos da
singularidade.
Um desconfia da opiniom dos artistas, a nossa natureza é a irracionalidade,
mas oxalá os artistas comprometidos com o que ocorre ao seu redor nom fossem
excepçom. Dúzias, centos, milhares de artistas comprometidos na denúncia da
injustiça e no apoio às pequenas utopias rebeldes que florescem.

O PASSADO VAI-SE OCULTANDO até que se nos perde de vista. Nom sabemos que
se passa com ele nessa parte oculta, vai-se ele ou vamo-nos nós?, esvai-se
ou permanece?
Permanece alí e mais logo habemo-lo de ir recuperando, como o fío do novelo.

OS HOSPITAIS PERMITEM-NOS VER OUTRA CARA DOS VARONS, DO MASCULINO. Homes
cuidando atentos de familiares doentes, homes com meninhos tam pequenos em
braços. É curioso que este lado amável é mais abondoso nos homes de aldeia.
Quantas cousas nom se perdem no tránsito da aldeia ao bairro.

OS ESCRITORES GALEGOS SOMOS OS ÚLTIMOS ESCRITORES ANTIFASCISTAS DA
PENÍNSULA. À força, vemo-nos obrigados. E depois de todo, nom nos
queixemos, todos deveríamos continuar a ser antifascistas, antifranquistas
sempre. Ou antifranquistas ou culpabeis e cúmplices.

DECATO-ME DE QUE ESTAS NOTAS TENHEM MUITO A VER com os diários do José
Torga, com as notas desassossegadoras do Fernando Pessoa, som também um
pouco portuguesas. Como nom vai ser reintegracionista um galego se, ademais
de ter dignidade, viaja, pensa ou lê? (Tambem un pouco catalanas, pois
está a sombra do Josep Pla)

CHAMAM-ME UNS ARTISTAS, QUEREM ADAPTAR A TEATRO OUTROS TEXTOS MEUS. A
insistência de gente do teatro e do cinema em adaptar aos seus espaços as
palavras que eu escrevim para serem lidas fam-me duvidar, se calhar nom som
exactamente “um escritor”. Se calhar som outra cousa, nom sei qual. Ai,
quem tivesse umha identidade clara, definida, limitada, e nom este andar
escarranchado e esticado para toda a parte. Consola-me a ideia de que a
vida é assim aberta e inapreensível, por isso é tam cansado viver. E tam
formoso. Quando um cansa, quigera ser severo escritor ou catedrático,
académico ou cousa así.

O PARIS-DAKKAR: Cago na mai que os pariu a todos esses! Nom avonda com
manter colonizado um continente, a mao oculta da França e dos interesses das
petroleiras atrás das matanças dos hutus, nom avonda com o que se lhe fai à
África por diante e por detrás, que ainda por riba há que passar-lhe por riba
a toda hóstia com chuleria. Por riba de puta, pagar a cama.

NA PORTA DUM MacDONALD´S MADRILENHO um home com um grande cartaz pendurado
do pescoço a anunciar tatuagens. Houvo um tempo em que umha tatuagem era
parte dumha viagem de iniciaçom à vida, os homes marchavam longe aos
perigos para voltar mudados: o serviço militar, o cárcere, viagens em
barco. Hoje tatuar-se é como comer umha hamburguesa.

PRECONCEITOS CONTRA O CINEMA. Onde eu moro é freqüente que, para fazer a
menos umha obra literária, digam dela que é mui influenciada polo cinema. E
eu que por muito que veja películas más nom consigo que o cinema deixe de
fascinar-me e de comover-me. Quem fala mal do cinema nom pode ter muito
coraçom. E, se nom, provem a ver “Billy Elliot” e digam logo.

FIGURA FÁCIL: Um livro é como un barco de vela (dos de Conrad, se puder ser)
e os leitores som como a brisa favorável que o leva polo mar. É umha figura
fácil, nom é?

LIBERDADE DE EXPRESSOM! Quem nom foi arrestado polas suas opinions, quem
nom viu rejeitados artigos para a imprensa devido às ideias que contenhem,
quem nom padeceu represália por expressar as suas ideias, quem nom foi
estigmatizado desde o poder por pensar como pensa, nom sabe o que é a
liberdade de imprensa nem a liberdade de expressom.

P.D.JAMES, RUTH RENDELL, as mulheres escritoras de romance negro som as
legítimas herdeiras do Dickens que conta da infáncia maltratada, do
embrutecimento das classes trabalhadoras. Um brinde por elas.

INCONVENIÊNCIAS DE SER ESCRITOR PROFISSIONAL: Andamos a fazer de figuras, a
explicar o que escrevemos, justo o que nunca deveríamos fazer. Tantas
entrevistas dizendo o que deve ser indizível, dizendo o que está escrito
para ser lido.

O HERÓI REVOLUCIONÁRIO, CHE, MARCOS, O MESMO QUE O ESCRITOR, DEVE SER
GUAPO/A neste tempo em que a notícia nom a trai um viajeiro que vem de
longe, senom que nos é injectada nos olhos pola TV.

NAS ÚLTIMAS HORAS DA NOITE, quando ainda nom veu o alvor, nom temos forças
já para ter conta da máscara. E somos nós, cansos, vencidos e desejando o
acovilho dumha cama uterina e total e para sempre.

AS OBRAS DO ESCULTOR RICHARD LONG sempre convocam a soidade dalgumha velha
religiom.

LEIO NUM LIVRO, “O CÁNONE OCIDENTAL” do senhor H. Bloom, enquanto escuito a
música do senhor Bony. De certa maneira, cai-me bem desde há anos Mr.
H.Bloom, gosto da sua insolência criativa, ainda que me parece que já
chegou ao
autoritarismo, à petuláncia e ao aborrecimento. E, sobretodo, o ritmo
furioso, a criaçom e expressom de estados de ánimo da música de Mr. Bony fai-me ver a
cor da morte num livro tam pouco humilde e que quer ser tam importante e,
digo para mim, quanta merda!. E cerro-o, e sei que já nom o hei volver a
abrir.

SOM OS VÍCIOS OS QUE MOVEM O MUNDO: a ambiçom, a cobiça, a luxúria, o
orgulho. Alguém mui virtuoso é alguém um pouco morto.
E, no entanto, o
freio da virtude é o que impede que a vida seja só devoraçom.

UM CONGRESSO INTERNACIONAL DE ALMAS MELANCÓLICAS aprovou as suas
comunicaçons: “A vida escorre-se-nos entre os dedos e nom nos atrevemos a
cerrar a mao”,”Temos medo”, “Que lindo é viver, mas, e a morte?”
Clausurou-se o congresso com os congressistas a bailar a dança da Morte e a
Donzela.

HÁ MUITAS RAZONS PARA FAZER CAMPANHA CONTRA A CANDIDATURA DE FRAGA IRIBARNE
A PRESIDENTE DA GALIZA, avonda com desejar-lhe à Galiza que tenha umha vida
digna, ou simplesmente que respire livre do nosso passado de crime. Estou
certo de que toda a gente de por Espanha adiante que se preocupa da falta
de liberdades no País Basco também se há mobilizar para que aqui também
tenhamos umha democracia verdadeira. Nom si? Um espera de todo o coraçom
que acudam aqui solidariamente a fazer campanha por um governo progressista
que termine com o franquismo que aqui ainda nos envolve tanto. A democracia
espanhola tem zonas de sombra, a Galiza é umha delas.