BOTELHA 8 (Maio 2001)

O CINEMA DE BERGMAN REALMENTE POUCA SUBSTÁNCIA TEM, mas as suas reiteradas
histórias de adultérios e segredos pessoais, que só dariam para um
incidente de dous minutos numha telessérie, som tratadas com tanto e tanto
respeito e intensidade que lhes espreme absolutamente toda a substáncia.
Bergman fai um caldo quase somente com o osso do pucho, mas o caldo mantém
e sabe.

O AMIGO DAVID DE UGARTE PUJO ESTA PÁGINA NA LETRA UNDERWOOD porque a
estética subjacente lhe recordou este tipo de letra, essa máquina do
desenho na cima da pagina principal. Empecei a escribir numha maquina Underwood, e certo. Lapises, penas, Macintosh…, as queridas ferramentas do meu oficio.

“ALVARITO”. O político que lhe escreveu um recente discurso ao Rei da Espanha, outro
político, e que este leu para o mundo cantando as glórias do castelhano,
afirma que este idioma nunca foi imposto, nem na América colonizada nem aos
galegos, bascos, cataláns. Tampouco houvo conquista e colonizaçom, os
nativos americanos morrêrom sós depois de escavar nas minas e trazer para a
Europa voluntariamente a prata e o ouro. Tampouco houvo imposiçom aos nenos
nas escolas espanholas. Nom houvo tampouco franquismo. Ademais, é certo o
que nos aprendêrom de meninhos na
escola, que Espanha é una, grande e livre.
Tal como vai a cousa as minhas ideas, a minha cultura acabara prohibida de novo. O meu nome na clandestinidade foi “Alvarito”, ¿terei de ir pensando outro?

O NACIONALISMO ESPANHOL ESTA TAM LEVANTADO, arreganha tanto os dentes. E
por riba di que nom existe, é um nacionalismo que se quer invisível.
Pois existe, caralho se existe. E padecemo-lo muitos. (Chist, nom digas
isto. Ham-te chamar terrorista ou cousa assim! )

E ENTRE AS SUAS PRIMEIRAS VÍTIMAS ESTÁM OS CIGANOS, gente sem terra e sem
estado. Aí diante de nós está umha gente, umha minoria étnica ou como se
chame, que existe sem território mais nom é reconhecida. Algum dia haverá
que fazer umha sociedade democrática que reconheça também essas pessoas.
Algum dia terám um estado que os proteja, sem necessidade de perder a sua
identidade, algum dia a sociedade espanhola, e outras sociedades europeias,
verám o que tenhem diante. Esse dia os ciganos serám resgatados do papel
de estraperlistas das drogas ilegais a que os tem relegado a sociedade.
Essa sociedade que é a que consome essas drogas.
ENTRETANTO VEM COMO A SUA IDENTIDADE LHES É ROUBADA, a cultura dos
ciganos andaluzes é desde o século XIX a imagem de marca de Espanha. Ciganos
toureiros, guitarristas, cantaores…que divertiam os senhoritos sevilhanos
e madrilenos continuam a ser o logótipo da cultura espanhola.
E os seus legítimos donos… que recebem em troca?
Senhoritos e senhoritas sevilhanos com traje de cigano subidos num cavalo
Pola Feria de Sevilha, de Xerez. Um dia ciganos orgulhosos baixaram-nos a
hóstias do cavalo e tiraram-lhes os trajes.

QUE ESCUITEMOS A NICK CAVE (AND THE BAD SEEDS) nada mais se explica porque
temos saudades de sacerdotes com fé fanática e furiosa. Umha fé triste e
desesperada num Deus amargo.

CUMPRE ALTERNAR COM O VINÍCIUS DE MORAES E O TOQUINHO, pois cumpre acalmar
a dor das feridas do cilício. O Brasil, tam grande como terrível, é também
um grande deposito de doçura. Doçura suave e morna.

NOM SEI SE QUEM ESCREVE ESTAS NOTAS, TAM AMARGAS. Se som eu ou a minha imagem
de escritor. Eu sei bem quem escreve os meus livros, se eu ou a minha imagem.
E nom sei se já nom me tenho convertido na minha imagem. SE CALHAR,
ATRAVESSEI O ESPELHO.

UMHA MULHER TOLA SENTADA num banco público a falar. Alguém, um escritor,
que senta perto dela para espreitar, escuitar. Há quem rouba carteiras, mas
olho com os que roubam anacos de um.

ESSA MULHER QUE ANDA COM SALTOS, CALÇAS DE COIRO MUI CINGIDO QUE LHE
APERTA E MODELA AS NÁDEGAS…, está a jogar um jogo mui antigo, o jogo
dramático da vida.

TIREI O RADIOCASSETTE DO AUTOMÓVEL, agora cantamos, contamos contos, falamos, aborrecemo-nos em
silêncio uns junto aos outros.

ÀS VEZES, QUANDO É NOITE, RESGATO-O E, ENTOM, a viagem é umha viagem
também por dentro da minha sensibilidade.

PORQUE A MUSICA É TODA INTERIOR, “MUSICA RESERVATA”.Um só se ouve decerto quando nós próprios nos
transformamos na câmara de ressonância.

MOZART OUVIA A MÚSICA INTEIRA DENTRO antes de transcrevê-la. E Beethoven
começou a ouvi-la quando ensurdeceu do ouvido para fora, entom ficou a sós
com a música, dramáticamente encerrado com ela. Por isso as interpretaçons nunca som
gratificantes, sempre som umha
frustraçom. As ideias, os números e a beleza mais abstracta nom encarna.

ENVOLVEN-NOS TANTO OS “MEDIA” COA SUA BANDA SONORA E A SUA TORRENTEIRA INCESSANTE DE NOVAS CANÇONS,
QUE PASSAM UMHAS E DEPOIS OUTRAS, que já nom sabemos cantar nengumha. Para
aprender umha cançom cumpre escassez, pobreza. No nosso tempo mediático nom
é possível deter-se, suspender o tempo, ensaiar umha e outra vez ata memorizala. É imposibel ter memória.

ANDO A ESCREBER CANCIOMS PARA UM GRUPO DE MULHERES, “LEILÍA”. O seu canto é o canto popular e antigo desta parte do mundo em que eu
vivo, cantos de trabalho, de namorar. Já nom se canta enquanto se trabalha,
tampouco para namorar (penso).
E que tam difícil nom é simular a inocência, imaginá-la, meter-se dentro.
E que difícil nom é alcançar as formas de beleza e engenho da inocência.

TAMBEM É DIFICIL ESCREBER LIBROS DE VALOR, tambem. Ha tanto a
atender, sucessos, aniversários, obituários…., que nom se pode com tanto
ruído.
O problema é a pobreza de experiência vital, apagada e substituída pola
informaçom. Um escritor precisa ter lido antes e logo seleccionar e vivir na pobreza.
Ainda que fose quem nom deberia andar todos os caminhos estéticos posibeis, non debería andar cara todas direçoms. Debo lembralo, debo lembralo, debo lembralo…

AMDAM ESTES DIAS CO OBITUÁRIO DO LUDWIG WITTGENSTEIN, nom vou dizer que o
conheço. Os dous livros que tenho del na casa estam sozinhos sem as minhas
carícias. Somente digo que tenho para mim que Wittgenstein gosta tanto aos
meios de comunicaçom porque é atractivo. O seu caminho atormentado é tam
característico que mesmo parece umha pose. Esse par de livros nom haviam
ser tam famosos se fossem escritos por um catedrático regordecho pai de
família que morreu velho, em vez daquele herói moço, esquivo e fosco.
Tanto tem, pobre Wittgenstein que viveu só e morreu só. Nem sequer
chorárom por ele os meninhos da escola dos Alpes a quem bouraba abondo,
segundo referem.

OS MEDIA SOM MUITO ANGLO-SAXONICOS, as suas personagens preferidas som pessoas duras e
sem carinho.
PENSO QUE O WITTGENSTEIN FOI OUTRO CAMINHANTE máis polo caminho alemám. Umha viagem a traves das palavras, da filología, polo tempo, cara atrás, cara terras de brétema. O positivismo nom é máis que umha barreira de fume.

NO AEROPORTO DE BARAJAS: Achega-se um homem novo estrangeiro a umha moça no
Escritório de Informaçom do aeroporto e pergunta-lhe num mui bom
castelhano: -¿Se puede fumar? -Está prohibido -responde ela. -Pero la gente
está fumando…-comenta el desconcertado e sinala a gente ali a ladinho
deles fumando todo o tipo de charutos com muito fume. -No se puede. Está
prohibido. Pero la gente fuma al lado de los ceniceros…-Ela própria vê
que a cousa é umha miga contraditória e remacha-. Nosotros no le podemos
decir nada.
O homem vai-se desconcertado, com certeza sopesando se pode, deve, fumar ou
nom. Vê-se bem que nom é de país católico e nom entende de
irresponsabilidades. Eu nom podo evitar rir e a moça também ri comigo.

O ESCRITOR É UN USUREIRO que conta, reconta e acarícia a sós as suas
moedas, palavras e livros.

O ATRACTIVO QUE TEM ÀS PESSOAS EDUCADAS TRATAR COM ARTISTAS: É
interessante contemplar selvagens amestrados e sem unhas. Ou meninhos civilizados que simulan ser salvagems. En calquera caso, son animalinhos ben curiosos.

INICIO A LEITURA DE BRAM STOCKER na soleada praia de Málaga sob este
sol: nom tem sentido. O vampiro existe entre brêtemas no meu país ou lugar
semelhante.
Nem sequer sei como a morte se atreve a apresentar-se aqui com tanto sol
alegre. Quem sabe, se calhar é este geladeiro que se achega sorrindo.

OLHAR-SE NUM ESPELHO OPACO até ver-se alô no fundo.

PEDRAS LUÍDAS. Acariciar as palavras até fazê-las falar, que digam as vozes
que levam dentro.

[No mar outra vez dende o 14.09.2006]