Botelha ao mar 9 (Junho-2001)

(Feito já?) OS REGENERACIONISTAS temos soidades do que nunca existiu.

O ESTILO INFORMAL, esse rapaz que sentou no espaldar do banco público com
os pés
pousados no próprio banco pratica o estilo informal. Ou seja, desprezar os
demais que van sentar logo alí a que el marche.

ANÚNCIO DE TABACO. Umha mulher que lhe pom a mao pola cintura a un moço,
umha mulher que beija outra… Mulheres independentes e com iniciativa, as
empresas expendedoras do cancro vam por vós. Mais claro, água.

A FALAR COM UM AMIGO BASCO sobre umha pessoa especialmente irritante, “É
que é para matá-lo!”. “Nom, nom digas isso”, replica o basco.
E entom um compreende o horror dessa expressom tam comum, já que em Euskadi
essas cousas se fam. Hai quem di “É para matá-lo”, e vam e matam-no.
Os assassinatos já consumados e os axejantes, o terror, tem infectado a vida e
a linguagem dos bascos.

EUSKADI, PAIS ESSE DE PESSOAS OBCECADAS. Penso numha persoa inteligente mas
tam atingida desse rapto de obcecaçom que chegou a dizer que ele já nunca
falaria euskera, pois havia quem matava no nome do euskera.
Nom figerom umha guerra civil no nome de Espanha? Nom fusilavam a nossa
gente ao berro de “Arriba Espanha”? Nom poderemos falar espanhol por isso?
Algum dia os ánimos irám-se serenando ali.

SOBRE O “QUIXOTE”. Parte da força do livro vem-lhe da soltura de estar dentro
dumha tradiçom mui codificada, a do romance de cavalarias. Também
Shakespeare escreveu dentro dumha tradiçom teatral codificada e com
tradiçom. Nom hai grande obra senom é dentro dumha tradiçom assentada (ainda
que parodie, trasgrida, liquide, essa tradiçom).

UM POLÍCIA MUNICIPAL. Um polícia municipal de serviço cum meninho em braços,
a mai levou o filho para que visse o pai que estava a trabalhar. Esse é o país
de que um gostaria. Polícias com meninhos nos braços a fazerem-lhe festas.

“CALMA, DIGNIDADE, DESPREZO DA INVEJA…”, escrevia Le Corbusier no seu
diário. Nom hai cousa melhor para qualquer que pretenda criar umha obra do
tipo que seja. Mas quando Le Corbusier escrevia essa prescriçom para si
próprio… nom seria antes que estaba adoecido polas invejas e os
desprezos? Que dificil nom é a indiferença.

NUM JORNAL, fotos de pessoas retratadas na sua casa, mostrando os interiores,
os jardins os que os tenhen…Se mostras os lugares íntimos já deixam de
sê-lo, som públicos.

AS BOMBAS PALESTINIANAS, terroristas suicidas, os corpos rotos, seccionados,
rebentados…A cena ensangrentada que deixam essas bombas som umha metáfora
terrível do corpo e da alma palestiniana.

O BAR ESTA CHEIO DE RUÍDO. Difícil contabilizar tantos ruídos diversos, hai
que falar a vozes para seres ouvido, mas o rádio está ligado também com o seu
chunda-chunda. Por que lhes é preciso esse ruído concreto aos do bar?

A MÚSICA DAS PELÍCULAS “DE MEDO”, do medo sobrenatural, Elliot
Goldenthal e tantos outros, é formosa: tanta corda tangida até
parecer lôbregas marés musicais é inspirada pola música religiosa. Temor
e piedade. (Ou “Temor e tremor”, como escreveu o Kierkegard).

OS OSSOS DO MEU AVÔ. O meu avô era magro, puro osso e pelelhos…da fame e dos
trabalhos. Hoje isso seria olhado como formoso. E a gente vai aos ginásios
para
procurar esse tipo de beleza.
Quem lhes dera a concentraçom de energia daquela gente que afronta a vida
em contra dela.

QUANDO O SAGRADO ENCARNA EM “DEUS”, personaliza, a vida humana volve-se um
juízo constante. Nom aos humanos, pois o divino é imperturbável, mas a
Deus, pois os humanos julgam-no a ele polo que ocorre e polo que nom ocorre;
Julgam-no pola vida.

CONTAMINAÇOM. Na entrada de um prédio: “Nom se admite publicidade”. Querem
dizer que nom lhes metam papéis publicitários nas suas caixas do correio.
Mas viver na
cidade e nom receber mensagens publicitárias…, tam imposível como nom
inalar monóxido de carbono.

LITURGIA. Tanto tem a devoçom ou nom, a complexidade doutrinal, as tradiçons
litúrgicas, de onde venha esse canto que entoam os cregos da catedral. Para
esta gente que fai a visita turística somente é folclore típico dum sítio
como este.

AS LIÇONS DOS MENINHOS. Todos os meninhos conhecem o mal, a morte desde que nacem. Todos
se assustam quando alguém se achega a eles com má cara. O conhecimento do dano
chega connosco ao mundo.

O OPUS DEI: Nom som cristaos. Con certeza som da Igreja Romana, mas
nom som cristaos, pois falta-lhes o mais característico da mensagem de
Cristo: a caridade. E carecem do específico da tradiçom religiosa e
antropológica judeo-cristá: a culpa.

AS CHAVES DOS LUGARES. Às veces um quereria ser um estranho a todo lugar.
Mas também é formoso ser dum lugar. Eu som dum país e, ainda que tenho umha
ligaçom intelectual e afectiva forte, realmente pertenço intimamente a uns
poucos lugares, especialmente à minha cidade.Cada vizinho dumha cidade tem
umha particular chave íntima da sua cidade. Eu tenho umha chave de Compostela.

A ÚNICA VERDADE DO ARTISTA é a sua obra. Ou seja, a sua vida verdadeira.

TODA A ARTE VERDADEIRA é no fundo religiosa. E o artista que caminha pola
via da religiom explícita, dumha confissom religiosa, fai o mesmo que
tantos espíritos fortes que se submetem ao masoquismo: buscam humilhar-se
para obter umha paz dentro e receber umha
bençom.

PARELHAS. Na rua um home e umha mulher idosos e gastos, colhidos da mao e
sentados na entrada dum prédio pedem caridade em silêncio, umha caixa de
cartom diante
deles no chao. Ao seu lado um cartazinho colado num muro com umha foto dumha
parelha de michinhos:”Busca-se lar para dous gatinhos”.

UM PAI QUE ENTRA PARA DEIXAR O SEU FILHO NA ESCOLA e vê aqueles corredores
altos e frios, e ainda que agora os muros tenhen cartazes de cores nom se
deixa enganar e pensa: “Nom che queria eu voltar aqui, nom”. Mas o seu
filho vai ficar ali quando ele partir.

O QUE VÊ UM CEGO diante dum espelho.

ESSA MOÇA tam linda que passou compujo umha pose tirada dum anúncio de TV.
Antes a beleza ganhada obtinha-se por imitaçom de belezas vivas.Agora é um
realizador de publicidade quem desencadeia essa multiplicaçom por espelhos. A
imagem da imagem da imagem dum anúncio da TV.
Isso si, era bonita a rapariga. A vida reparte as suas bençons de modos que
nom reconhecemos nem entendemos. É assim.

[No mar outra vez dende o 16.09.2006]