Botelha ao mar (Decembro-2001)

BOTELHA AO MAR (Decembro-2001)

E QUE HAVIA DE FAZER UM SE FICASSE XORDO? Sem poder ouvir música, essas
pingas,
lágrimas, de céu que entram pola orelha. Teria de inventá-la dentro.

SOMOS GERAÇONS PERDIDAS, o meu país devora impertérrito geraçons inteiras.
Só quem emigra se livra. Emigraçom, um dos nomes do exílio.

TAMBEM A VIDA MESMA DEVORANOS UM A UM E TODOS POR JUNTO.

“A VIDA SEXUAL DA CATHERINE M.”, é um livro surpreendente por revelar um
vazio tam grande e cruel e frio. O sexo é um pequeno jardim que nos oferece
a vida no caminho. Mas, no jardim adoita ter a serpe o seu tobo; o sexo
também pode levar dentro um inferno têmero.
NESSE LIBRO, RECONTO SÓRDIDO E ESGOTADOR DE PENETRAÇONS E CARNES BRANDAS, TENSAS OU
LACERADAS, Catherine Millet continua umha tradiçom, mui francesa, de
investigar o sexo ensimesmado, carne fria, autópsia do sexo. Um relatório
fatigoso, sexo numérico, vágado, na estela dos pesadelos do Marquês de Sade
encerrado na sua masmorra, a tristeza de Michel Leirís, Bataille, Genet,
Sartre, Foucault…
MAS , ESTOU CERTO DE QUE CATHERINE MILLET TERA TAMBEM, quiçá mais que
ninguém, umha melancolia mui grande encerrada nalgumha cela intima. O discurso
do sexo argumentado, à maneira de um pesadelo da Razom, é o seu cárcere.
Falta-lhe umha chave feita das palavras que libertem o seu coraçom.
Há umha cousa mui triste nessa França tam inteligente. Que é que lhes falta,
que é que perdêrom?

DOUS ADOLESCENTES XORDO-MUDOS pola rua, amam-se por senhas. Sem palavras, só
acenos e olhadas, o seu amor juvenil semelha mais limpo ainda.

A CADA VEZ QUE VEJO NA PANTALHA UM SPOT DA COCA-COLA, eu dentro de mim cago
por ela. Lembrem, quando a bebam, que houvo um porco que cagou nela.

NA COSTA BRAVA, AO PÉ DUM FARO ESGRÉVIO E SOLITÁRIO, chega o auto de umha
gente de excursom. Param e abrem as portas do auto, sai de alí a súa música
a todo volume. Nom aturam aquel lugar quase selvagem e deixam a sua pegada,
também eles deixam a sua cagada, o ruído infame.

COMO JÁ NOM HAI IDEOLOGIA, ninguém reparou muito no tremendo machismo das
histórias de Harry Potter.
A literatura fantástica, por nacer separada da realidade social, tam
nascida da cámara do subconsciente reproduze o nosso mundo íntimo. Os
autores de literatura fantástica, essa mulher que escreveu o Harry Potter
também, propendem pois ao machismo que vai en nós.
A magia do H. P. nom é mala, mas podia melhorar.

DEIXEM EM PAZ A SALINGER. Jornais que reproduzem fotos que lhe fôrom
roubadas, tiradas sem o seu consentimento. Os comentaristas rejoubam con
essa vontade sua de estar apartado dos “media”, curiosamente essa vontade
sua fai-no mais atractivo para os “media”.
Salinger, que procurou a discreçom mais absoluta, vê agora como umha mulher
a quem hai anos escreveu cartas de amor publica-as. Vê como a sua filha
publica as cartas que num tempo seu pai lhe escreveu.
A inocência, ou a procura da virtude, estimula mais os miseráveis.

O CANTO DAS SEREIAS. Ulisses escuitou, atado ao mastro do navio, o canto das
sereias. Desde aquela é um homem marcado por ter escuitado esse reclamo.
Perde o interesse em toda cousa, só quer tornar a escuitar aquel canto,
voltar junto delas. Ainda sabendo que vai ser aniquilado.
Ou foi o astuto filho de Laertes o que as aniquilou, pois já nom cantam?
Ou tera-o inventado todo el, fantasía de marinho exótico e fanfarrom?

UMHA MAI DÁ A MERENDA ao rapazinho na paragem do bus. O meninho abre a boca
e engole o iogurte que ela lhe dá com umha colherinha brilhante que trouxo
da casa, logo limpa-lhe a boca. Todo ali de pé, no passeio, na paragem
entretanto nom dá chegado o bus. Tanto carinho alimentício para que o rapaz
medre sam.

UM CANSA DE SER UM PRÓPRIO, é duro de mais ser sempre um. O mais duro é
encarnar a um mesmo pola manhá, adoptar um dia mais essa cara dum mesmo.

QUEM PUDERA EMIGRAR DE SI PRÓPRIO. Sem malas e deixando todo atrás. Às
vezes. Se nom fosse polas pessoas que um quer e que atam e condenam a viver
a própria vida.

AI, PALESTINA, meninha rebentada en bolboretas vermelhas. E o mundo a contemplar-te.

[No mar outra vez dende o 12.11.2006]