Botelha janeiro 2002-01-15

BOTELHA JANEIRO-2002

BOTELHA JANEIRO 2002-01-15

EMINEM nom é rap, é violência e ternura.

O ENTERRAMENTO DO CAMILO JOSÉ CELA NA PANTALHA DO TELEVISOR, retransmitido
em directo e comentado com voz solene, duas horas de funeral, gente a ir e
vir, curas, autoridades do governo, aplausos. Isso nom é ser soterrado, isso
é entrar no Património Nacional. Enterramento cortesao para um escritor
grande, mas cortesao. Poucas cousas mais tristes que toda essa solenidade
obscena.
É o momento de pensar no nosso e de dizer no vento e de escrever nesta
superfície inexistente que quero ser soterrado sem que se inteirem as
autoridades e os meios de comunicaçom.

E, NO ENTANTO, UMHA MIGA DE RAZOM TEM O CJC, ainda que um queira a morte
pessoal e nom a cenificaçom da pompa do personagem, e logo nom é mais
coerente essa morte social e espectacular? Ao cabo o escritor vive no meio da vida
pública do seu tempo. Oferece aos contemporáneos o espectáculo de
atravessá-la. Por que logo ocultar-lhe o fim dessa viagem pública?

CANTA A NELLY FURTADO, E CANTA TAM FRAGIL, NINFA E BEM, “Desculpa -me se eu te
ofendi / Desculpa- me se eu te esqueci/Desculpa -me se eu te deixei / E
desculpa-me por me sentir bem com tua dor / Sabes que eu te adoro / Mas
sei que a tua estrela é maior / Do que a minha, do que a minha / E por
isso / Eu tenho medo desse amor (os dias passo pensando em ti).
A Nelly é canadiana, mas também sabe cantar na língua de seus pais.
E eu, que a escuito, tenho que ouvir onde vivo, na Galiza, que o seu
idioma é outra cousa diferente do nosso. Tenho que ouvir que o galego é
diferente do que canta Nelly. Tenho que ouvir, e chorar ou rir, dos que
tenhem soidades das alfándegas, dos últimos polícias do espanholismo que
negam essa viçosa evidência que canta polo mundo em milhons de gargantas.

A NELLY, A DIDO, A ALICE KEYS, Uauhhh. O poder da voz turvadora das
mulheres novas. E quem dixo que nom houbo ou hai sereias no mar e na
terra? Os mesmos que dim que nom hai meigas.
Ai, o canto das sereias.

AS MULHERES SOM AS VERDADEIRAS DONAS DO MUNDO. E por isso, justo por isso, é
polo que os homes lho temos arrebatado e as encerramos.

O ROMANCISTA CONFESSA-SE: Já nom dou lido romances. Hai anos que nom dou.
O romance pide-nos a mente atenta e mansa. E nom sei quando foi, se os
anos ou o ofício de escritor, que se me pujo dispersa e fera. Nom podo
ler romances. Será o preço de escrevê-los? Provavelmente.

ARIEL SHARON: Sabra e Chatila.

ÀS VEZES UM ESTÁ FALTO DE ALGUMHA COUSA, algo assi como falto
de contemplaçom. E entom, já que um nom tem igreja nem paróquia, entra
nalgum museu.

A MINHA CANÇOM FAVORITA, A MINHA CANÇOM FAVORITA Já levo dito tantas. Hoje é
“My favourite things” (de R.Rodgers-O.Hammerstein II), do musical “Sorrisos
e lágrimas” interpretada por John Coltrane. Como é que
Coltrane consegue quase quase o que procura interpretando um tema que
semelha trivial.
Nom o é, nom o é.

AI, ESSA PROCURA DO INFINITO, DA TRANSCENDÊNCIA NOS GRANDES MÚSICOS (eles nom estam coutados polas palabras, a linguagem e os seus limites como os escritores) , também
nos de jazz. “Os perseguidores”: Parker, Coltrane, Mingus, B. Holliday,
Davis.

LEVO DENTRO UN JUDEU E MAIS UM CELTA, e andam sempre a rifar e a loitarem.

W.H. AUDEN: Outra razom para desdenhar o Nobel. Era homosexual “de mais”?
[No mar outra vez dende o 24.11.2006]