Botelha ao mar (Fevereiro-2002)

BOTELHA AO MAR (FEVEREIRO -2002)

VEJO NA T.V. uns “indígenas”, “aborigens” (Todos somos indígenas dalgum
lado, ou já nom?). Ali estám com as suas pinturas no corpo e as suas danças, a ser
depredados pola cámara para nós, os telespectadores.
Também eles som precisos no planeta TV, também eles trabalham no mundo do
espectáculo.
Verdadeiramente todos somos já aborigens do Planeta TV.
Poida que em chegando a casa tambem eles vejan aborigens na sua TV.

OS ANIMALINHOS DOS DOCUMENTAIS nom som selvagens, eles também trabalham
nesse mundo do espectáculo.

ELES TERIAM DESAPARECIDO EXTERMINADOS, como forom os indígenas norteamericanos, se nom for porque a nossa civilizaçom chegou a este estádio em que todos somos consumidores de imagens: por isso é
preciso conservá-los, para organizar ali safáris, turismo, e para essas
reportagens de TV e de “National Geographic”.

O POETA E O LUGAR: Claudio Rodríguez escreve desde a sua terra seca zamorana.

MIGUEL DE CERVANTES E SAAVEDRA levava os apelidos de seus pais da aldeia de
Cervantes (Lugo); Frei Luis de León era de Sárria (Lugo) e eu, de Toro,
som de Santiago. E assi e todo os apelidos, esses nomes que venhen do
remoto, abrem-se passo: Zamora, esse lugar imaginário, chama-me mais alto a
cada día.

O ESTADO INVADE-NOS, reúnem-se muitos Chefes de Estado na minha cidade e a
cidade deixa de ser minha, tua, sua, nossa dos vizinhos. Estes caseiros do
Estado trazem com eles 4.000 polícias e ocupam-me a minha cidade, toda para
eles. Cidade estatalizada, militarizada. O Estado a cada vez mais policial e
militar.
Bush marca o caminho e os criados andam ao passo da oca.

VENHO DO QUIOSQUE com umha bolsa plástica cheia: 2 jornais (“El País”,
“T.L.S.”), 2 livros (“El espacio vacío”, Peter Brook; “Tiempo”, J. R.
Jiménez), 2 vídeos (“Hamlet 1ª parte” do K. Branagh, “Othello”……….).
Cruzo com umha mulher que traz também umha bolsa plástica, assomam os
vultos das laranjas, folhas de verdura, chícharos…Ela vai-lhe dar de comer
à gente. Eu levo folhas secas, objectos mortos. Quanto nom fazemos o parvo alguns.

A IMORTALIDADE. Nom criamos para que se nos lembre, isso é impossível para
as pessoas que nom nos conhecêrom quando estávamos vivos. Queremos criar
obras de arte duradoiras para que os nossos descendentes tenham cousas para
celebrar, mesmo comemorar. Queremos dar-lhes rito e senso; completar,
desgraciadamente mesmo suplir, a religiom.
Para que podam olhar atrás, para que tenham passado e imaginem futuro.

LOCUTOR DE TV: “Nació en un pueblecito alemán de nombre casi
impronunciable”. Nom é que “seja impronunciável”, é que tu nom o sabes
pronunciar, burro velho.
As culturas monolíngües e que fiam nas alfándegas som inconscientemente
xenófobas.

PORTO ALEGRE, alegria que se derrocha e estende, frente à usura dos
poderosos verdugos.

A VINGANÇA DOS ESCRAVOS. A través da “MTV” os pretos norteamericanos
conquistam o mundo a golpe de ritmo.

NO HOTEL DESTE POVO, MUNGIA, perto de Bilbao, tenhem umha pintura ao óleo na
entrada: vacas, mulheres antigas, casas aldeás. Mais na pantalha da TV acesa
brinca sincopada umha mulher americana e canta em inglés. Nom, o
passado nom existe.

PAIS VASCO, aqui a ternura semelha um bem escasso.

MAS AQUI UM COMPREENDE QUE A GALIZA desconhece a firmeza. Nada haverá, nada
poderá ser construído sobre a areia.

EM EUSKADI um vê que foi, que é e que será, mália que nom goste a outros.Con tudo, logo se passa da firmeza á teimosía.

UM NOM DEVERA VIAJAR, logo regressa e quer melhorar as cousas, o país. E
assim nasce todo disgosto e todo sofrimento.

NOM DEVÍAMOS VIAJAR. Ou bem marchar para sempre.

E POR QUE GOSTAREI TAM POUCO DOS VALSES VIENESES?

[No mar outra vez dende o 11.12.2006]