Botelha ao mar (Marzo-2002)

BOTELHA AO MAR (Março-2002)

SHARON: Sabra e Shatila.Palestina toda.

O SARAMAGO NOM TEM RAZOM?, é certo que o que fai agora o estado israeli aos
palestinianos nom é o que fijo daquela o estado nazi aos judeus. Mas, que
cousa é logo? Haverá que lhe atopar um nome novo, algum nome terrível
também.
Nom fagam escándalo da comparança que fijo o Saramago, melhor pensem no que
estám a fazer, tam cruel.Se isto nom é tam terribel, cuanto menos terribel?
Que alguem mida a dor palestina, o peso e o prezo desa carne como pedia o velho Shylock.
E que alguem lhe diga logo ao mundo a cuantia dese horror que contemplamos en directo.Facéndonos cúmplices dessa obscenidade.

O SUPERMACHO é paradógico: o verdadeiro herói de guerra é o que regressa
dela, o cavaleiro mutilado.

SER FAMOSO, viver a experiência da fama é umha forma de loucura. Umha forma
de autodestruiçom.

TATUAGENS sem significado. Essa rapariga na praia tem o lombo tatuado com
debuxos que nom significam nada nem tenhem um sentido concreto para ela.
Escolheu-nos no repertório que lhe oferecêrom na tenda de tatuagens.Puramente decorativos.
Nom som signos de ter sido iniciada a nada ou de pertencer a nengumha tribo. Ou si,
de pertencer a um rebanho de servos do consumo, gado humano. Nisso nos temos
transformado.

SEN DEUSES, TRIBU, NAZOM, IDEOLOGIA,SONHOS…, so temos o corpo. Belizcamos o corpo para
constatar que existimos. O corpo, soinho, é toda a nosa identidade. Reducidos ao corpo.

NUM ENTERRAMENTO, a gente dá-se a mao, abraços, beijos. A morte reforça os
vínculos entre os vivos. Seguimos vivos, sobrevivemos ao morto, demos
graças e alegremo-nos.

NAS VIAGENS HEROICAS, na Odisseia, na Procura do Graal, o herói procurava
algo, o caminho de volta a casa, umha cura milagreira. Que é o que procurava
o Dom Quixote? É o primeiro contemporáneo, caminhou sem caminho e sem rumo.

A IDEIA JUDIA E LOGO TAMBÉM CRISTÁ da divindade. Pai, Filho, e logo o
Espírito Santo. A dialéctica Pai/Filho entendo-a bem, o “Espírito Santo” já
nom pode ser entendido, deve ser compreendido, pois compreende, concilia e
reconcilia o Pai e o Filho. E logo o Espírito Santo nom será a Senhora?

QUE FAI O RELÓGIO DE SOL pola noite? (Governa-se pola lua)

NA CONSULTA DO MÉDICO, umha mulher vai debulhando a sua vida, cada trabalho,
cada filho, todos os seus méritos e os dos seus filhos: trabalhou,
estudárom, trabalhárom, nom bebiam, nom fumavam. Ao fim relata o drama:
morreu-lhe umha filha e mais um neto, e umha nora também. Antes “era
católica como todos”, agora nom crê em nada. Está con “três tratamentos para
o coraçom”.
Dous homens, um a cada lado, que aguardam também a sua vez do médico,
contam-lhe outros casos muito piores por consolá-la: homens sem pernas,
mutilaçons. “A vida é assim”.
Com toda a lástima que nos dá, impom-se umha evidência: é umha pelma,
umha prosma. E segue, e venha e dá-lhe.

A FOTO DOS OLHOS. Tropeço com um amigo fotógrafo a quem nom via desde havia
anos, “¡Quanta alegria!”. Também el tinha desejo de ver-me, precisamente
está a preparar umha série de retratos de gente, quer retratar-me, mas devo
tirar os lentes escuros, quer retratar somentes o olhar.
Bem, eu entendo a sua lógica, mas precisamente é o que quigera
proteger, polo mesmo motivo que el a quer atrapar e logo mostrar ao mundo,
justamente polo mesmo motivo.

A ARTE CONTEMPORÁNEA (escrevim-no hai anos, já nom o lembrava) é
INEVITAVELMENTE PORNOGRÁFICA. Seguindo o carácter do nosso tempo,
depredador, desmitificador, desvelador, que odeia e destrói toda aura, toda
sombra e todo segredo. A arte do nosso tempo é feroz e reduze-se ao que em
cinema chamam “primeiríssimo plano”. Todo se baseia na ideia de que todas as
cousas podem, e sobre todo deben, ser vistas, atrapadas, cousificadas, objectualizadas.
Bem, quem sabe, quiçais precisamente por isso, nos protejamos desse olhar
esculcador, desse olhar feroz da cámara contemporánea.
Nom posarei para essa foto do meu olhar, arrependo-me muito de tê-lo
feito hai anos.É duro ser retratado, a parte máis dura do trabalho.

JÁ A NINGUÉM INTERESSA O RETRATO TRADICIONAL, aquel em que a pessoa constrói
a sua personagem, rictus sério, grave, ou risonho, a mao assim ou assá,
vestido disto ou daquela maneira. Permitir que um tente ser quem quer ser,
esse jogo da identidade pessoal. Hoje o retratista é selvagem, quer traspassar,
vulnerar, cravar a borboleta com alfinetes no painel de cortiça na parede.

O ULTIMO, DERRADEIRO, CONCERTO DO JOHN COLTRANE foi no “Center of African Culture” en New York
e chamouse “Roots of Africa”. E logo, a que chegou a aquela sua casa de volta, rematou a sua viagem e morreu.
Asi e todo, ninguem chega enteiro á fim da viagem, a sua interpretaçom da fermosa “My favourite things” que antes fijera tam delicadamente foi aquel dia torturada e rota.Um chega ao final roto.

SHARON: Sabra e Shatila.Palestina toda.

[No mar outra vez dende o 26.12.2006]