Botelha ao mar (Abril-2002)

A LER O “DIÁRIO” DO ANDRÉ GIDE: umha inteligência aguzada, sensível, complexa, paradoxal, aberta…Tenho medo a pensar que isso nom pode ser bom para o escritor de ficçom. A inteligêcia extrema afoga o ímpeto inocente, intuitivo, que devemos esforçar-nos em conservar. E a compreensom racional imediata impede que atopemos outras compreensons, máis complejas e fondas.

 

A LER UM LIVRO SOBRE IMPOSTORES (“Impostores”,Sarah Burton). Tem de haver muita frustraçom e muita tristeza na vida de um para decidir-se a fazer-se outro, para fazer-se impostor.

 

OXALÁ UM SUPERVIVENTE DE AUSCHWITZ, UM SÓ, só um acuda às povoaçons em que viviam os palestinianos expulsos das suas terras, povoaçons agora em ruínas, e ali dê umha voz: “Nom, isto é o único que os judeus, sejam de Israel ou de qualquer parte, nom podemos cometer! Sharon e quem o apoie é culpável!”

 

QUAL CRIME DE SHARON E OS SEUS É MAIOR? Exterminar essas pessoas palestinianas cruelmente ou liquidar moralmente Israel, arrastando com ele os judeus do mundo?

 

SABEM OS HABITANTES DE ISRAEL O QUE O SEU EXÉRCITO FIJO AOS PALESTINIANOS? Daquela som culpáveis moralmente com o seu governo. Ocultárom-lhes os meios de comunicaçom esse crime? Daquela estes som os primeiros culpáveis.

 

ADORNO PREGUNTOU-SE SE ERA POSSÍVEL A POESIA LOGO DE AUSCHWITCH. Os tanques israelitas e os helicópteros norteamericanos “Apache” bombardeárom a casa do poeta palestiniano. É umha resposta como qualquer outra.

 

OXALÁ ISRAEL CONTEMPLE O DESFEITO, os hospitais e escolas sistematicamente arrasadas, os documentos roubados para que os palestinianos careçam de títulos de propriedade da terra, os expedientes académicos roubados para que nom tenham titulaçons e nom podan sair de mao de obra ruda, os condutos da água rotos, os tendidos eléctricos cortados…Oxalá contemple isso e pida perdom, repare, cure o dano feito. Oxalá faga o que deve.

 

ISRAEL CONDICIONA TODOS OS JUDEUS DO MUNDO, e agora arrasta-os na sua deriva histórica. Do mito civil com que fundaron o estado de Israel, umha utopia social, à ocupaçom dos territorios palestinianos e Jerusalém. E assim ficou ali diante o sonho bíblico, o povo eleito e a terra prometida. Mas nom é possível fingir inocência, essa terra tinha e tem dono, esses expulsos, esses refugiados. Agora o pacto com Iavé é o pacto com os EE.UU. Os mitos às vezes ofuscan e arrastam os povos.

 

ACTORES E ESCRITORES. Ambos exibem-no todo. Cousas contrárias, caminhos contrários, mais ispem-se. Ser actor e mais escritor havia ser cousa insuportável, um faria-se transparente.

 

FAGO O LANÇAMENTO DUM LIVRO, (“Ambulancia” na ediçom castelhana), e outro (“Trece badaladas”, em galego, que em Setembro será “Trece Campanadas” en castelhano) e fago umha série de entrevistas, e logo outras muitas, e passo $o ano a falar dos livros, a explicá-los, analisá-los…
Shakespeare explicou-se tanto sobre algumha das suas obras?
Nom, nom lhe fazemos bem à obra falando tanto dela. Nem nos fazemos bem a nós como escritores com esta vida um pouco estúpida a cavalo de ser escritor e também actor, ou cousa assim.

 

INDIGÊNCIA EXTREMA. Um home mal-toca umha frauta na rua pola esmola. É tam tam pobre que nom tem nem cançons: toca “Chiquitita” de Abba.

 

O NOSSO CORPO é dos nossos devanceiros, um leigado genético da espécie. Nada mais é nosso o olhar.

 

OUTRA VOLTA AQUI NA JANELA DO AVIOM, o meu olhar sem brilho, céptico, ja nom aguarda surpreesas: umha nuvem que assombre, um horizonte luminoso que pasme…

 

NAMOREI-ME DA AMELIE de “Amelie”. Hai alguém mais…?

 

E PASSAMOS A VIDA DE AQUI PARA ALI A FAZER O RIDÍCULO. Só a morte nos dá umha imagem mais serena e digna. Mas, ai, estamos mortos.

 

[No mar outra vez dende o 15.01.2007]