BOTELHA AO MAR (Maio-2002)

BOTELHA AO MAR (Maio-2002)


PRECISAMOS DA MÚSICA BRASILEIRA, precisamos vitaminas para a alma.

A FAMA: A hipóstase da imagem própria.

OS ALPES. Pensei que já nom, mas volvem-me a assombrar, som tam novos! Pura mocidade da terra.

O ESCRITOR TRABALHA com dous únicos materiais, a linguagem e o narcisismo.

QUEM SE MOSTRA DE FRENTE E ESPIDO só será visto depois de que esteja morto e haja a distáncia do tempo.

O ESCRITOR NOM ESCREVE PARA O PRESENTE, e se escreve assim engana-se. A obra literária vive num tempo próprio, que nom é presente, nem futuro nem passado. Num tempo sempre actual (mas nom presente).

BUSH E SHARON levam-me a procurar no quiosque de volta a “New Left Review”. Fam-nos lembrar cousas importantes. De nós e do mundo.

NO PORTO DE HAMBURGO, “Restaurante Galego. Portugiesische Spezialitaten”. A gente que anda por aí, polo mundo, compreende o essencial e perde o medo ás fronteiras e aos preconceitos enfermizos.

EM KIEL. Por entre as nuvens assoma o sol inesperado. Bálticos de pele fina a untar-se de crema protectora sob este sol imaduro de Maio. A pele tam fina da inocência.

HAI QUE ALIMENTAR generosamente o orgulho cada dia. E à vaidade meter-lhe umha boa malheira também cada dia.

UM DESSES PARTIDOS DE FUTEBOL DO SÉCULO, desses que é quase obrigado ver, que os fanáticos quigeram que imobilizasse a todo o mundo perante as pantalhas, as ruas desertas como se tivesse caído umha bomba de neutróns.
Porém, hai gente pola rua, aínda ficam seres vivos. Ha supervivintes. Mesmo os pássaros estám a cantar ignorantes do encontro transcendental que havia paralisar o mundo.

ISSO SIM, pola noite até à madrugada demonstram que eles, os futeboleiros, som os donos da rua. E dam berros e ouveam e fam soar os claxons dos autos para que nom durmamos os demais.

NUM PARQUE DE SALAMANCA um homem olha-me passar fitando com um olhar de Leopoldo María Panero. Talvez a gente tenha olhares comuns e partilhados.

EUROPA, É CERTO, ESTÁ AVELHENTADA, e como consequência também infantilizada.
A prolongaçom da vida trouxo como consequência a prolongaçom da infáncia e juventude, da imadurez.

MENINHO NO TREM. Tenho nas maos um poemário do George Trackl, “No escuro espelho da minh’ alma/ Há imagens de mares nunca sentidos”, mas um meninho que durmia esticado numha cadeira do comboio aí diante, canso de tanta viagem, acordou e ofereceu-nos ao mundo a sua carinha de rato curioso e tenho de encartar o livro. De súbito pareceu-me falso lêr palavras sombrizas com ele ali ao lado, tam lindo e tam luminoso.

UMHA FOTO DO POETA: O Trackl sentado numha cadeira do estúdio fotográfico da Viena antiga, a olhar para a frente com o sobrancelho francido. Contra o fotógrafo, contra o que o contempla? Contra quem fijo essa foto o poeta?

[No mar outra vez dende o 14.04.2007]