Botelha ao mar (Junho-2002)

BOTELHA AO MAR (Junho-2002)

E JÁ VAM ALÁ DOUS ANOS desde que botei a primeira botelha, garrafa cheia de letras, ao mar virtual.
Daquela pensava eu que tinha a possibilidade de editar as minhas opinions em jornais impressos e que isto, esta pagina web, era un refúgio, um lugar privado e anónimo, para as cousas inclassificáveis.
Dous anos depois constato a perda tam grande de liberdade de expressom na Galiza e que nom hai apenas lugar para mim. Constato um boicote efectivo ao meu último romance. Constato que um escritor dificilmente pode viver do seu ofício se os meios de comunicaçom do seu país nom lho permitem. Constato a canseira. Também constato que me resta umha decisom a cada dia mais cansa de continuar até onde puder. Eles nom podem ser os donos do meu sonho, o meu sonho dumha cultura digna e um país livre é meu, nom deles.

A CAÇA. O primitivo que caçava animais salvagens unia-se assim a eles, tomando-os e devorando-os, e formava parte do seu mundo. Do mundo. A caça era devoçom e religaçom.
Nós, que comemos carne industrial, pitos fabricados en série em jaulas míseras e insomnes,…Nós que comemos pobre carne sem alma…A que nos unimos? A que nada nos unimos, a que vazío nos adentramos? A que escuridade fria e morta nos ligamos devorando essa carne vazia, comungando essas hóstias de nada?

O PESSIMISMO FAI-NOS REACCIONÁRIOS E RUINS. É bom frequentar o tratamento de pessoas entusiastas e optimistas.
(O mais seguro é que também elas cansam e som tocadas pola melancolia quando estám sós e ninguém as vê. Benditos sejam, que dissimulam para benefício nosso, que insistem na sua inocência e na esperança.)

DESDE O AVIOM. E de súbito, alá em baixo, montes nevados. Sinto-o, mas nom podo dizer “montanhas nevadas”, mália que o som. Essas palavras vam para mim unidas a um hino fascista espanhol.
Também o “nacionalfascismo espanhol” da minha infáncia e juventude corrompeu a linguagem, lixou as palavras. E, porém, na Espanha nom existe consciência disso, nom existe consciência de cousa nengumha. Essa consciência está na cultura alemana deste tempo, mas a Espanha nom conhece a culpa, “que cousa é isso?”

UM ESQUECE A ESPERANÇA A MIÚDO, esquece a promessa de que existe essa montanha e essa neve aí em baixo.
O cepticismo, tam autosuficiente, e a verdadeira mentira.

OS NOSSOS AVÓS VIVÊROM NO TEMPO COSMICO, o tempo cósmico e solar das estaçons e da luz do dia e do luar da noite. Nós somos analógicos, vivemos no tempo das 24 horas do dia e do calendário dos 365 dias. Os nossos filhos som já digitais, vivem no tempo virtual.
Ai, a que velocidade nos afastamos do mundo. Hai esperança, hai céu, hai noite, hai dia…, nesse novo mundo virtual que ja é o nosso?
(Desse medo meu nasceu-me o romançe “A sombra caçadora”. Nom tenho medo a ter medo, o medo é livre. Nada mais tenho medo a que me poda e me vença um dia)

O BUFOM. O bufom é o espelho do poderoso. A máis poder, mais cruel deve ser o espelho.

MÁGOA QUE MORRERA LEE MARVIN.

TODA A CIVILIZAÇOM OCIDENTAL é plena e profundamente judaica. Assim pois, o antisemitismo contra o judeu nom é senom edipismo, ódio ao pai. (E, paradojalmente, que judaico nom é o edipismo!)

MENTRES ESCREVO ISTO interpreto na minha cabeça e com a boca a Première Gymnopédie. Verdadeiramente um está tentado a pensar que a obra artística viva, além dum rito de celebraçom da vida e o seu mistério também é comemoraçom do artista. Satie.

PAUL CELAN quando escreve tem detrás as Escrituras, nasce dessa raíz: a palavra sagrada.
Todos os demais, os que formamos essa heregia, os ocidentais, partimos da palavra literária, da palavra desacralizada, profana. Somos filhos da miseria espiritual.

“GHOST DOG”. E que bem que existam Jim Jarmusch, Forest Whitaker, a banda sonora de “The RZA”. E que bem que exista o cinema, esse bem.

‘THE BELIEVER”. Alguém di na saída do cinema, “vim-na como desde fora, parece-me dumha cultura mui diferente da minha”. Como alguém pode dizer que a agonia da existência cindida, que o judaísmo, é dumha cultura alheia?

SOM UMHA ENCICLOPÉDIA CAÓTICA. Umha enciclopédia do meu caos pessoal.

NO FUNDO, PARA UM ESCRITOR OCIDENTAL, só existe o judaísmo. Ou o seu contrário: a religiosidade, a vida mágica, dos celtas, o humano religado que habita um mundo mágico.
Som judeu e celta à vez.

ZONA CONTAMINADA. Num bairro de Madrid cartazes dos vizinhos: “Zona contaminada por ruidos nocturnos. (www.espaciovecinal.org)”. As cidades morrem de si próprias, autodestrúem-se.

TURISMO RURAL. A Xunta de Galicia legisla as condiçons que devem cumprir as hospedagems chamadas “Casas de Turismo Rural”: devem ter telefone e TV em cada quarto. Este mundo estúpido!

[No mar outra vez dende o 11.06.2007]