Botelha ao mar (Julho-2002)

BOTELHA AO MAR (Julho-2002)

TÁXI EM MADRID. Falo ao telefone celular com a casa, em galego. Posteriormente, logo de ouvir-me falar, o taxista pergunta-me se som italiano. Esta Espanha, este Madrid… Que Espanha é esta que nom mudou, para a que continuamos a ser estrangeiros?

OS ESCRAVOS PRETOS, arrancados da sua terra africana perdêrom-no tudo, também o idioma. E que lhe dérom eles ao inglês norte-americano? Um tom profundo e grave, como se essa gente levasse um continente inteiro dentro.

A SÍNDROME DE DOWN. Curiosamente a salvaçom do nosso mundo objectal, frio e cada vez mais perdido seja algum segredo que ocultam e portam essas pessoas que têm a síndrome de Down, esses “mongolóides” : talvez eles, tam carinhosos, tam meninhos, tam carnais e ternos saibam o que nós cada dia ignoramos mais.

É CERTO, NOM PODO CONCEBER JESUS COMO FILHO DE DEUS. E porém a sua mensagem é completamente distinta a todas, única. E mesmo, divina.

SANTIAGO-VIGO EM CAMINHO-DE-FERRO: Som 100 km e a minha viagem durou 1 hora e 41 minutos!

ESTA GALIZA É UM PAÍS PARA DESOCUPADOS, aposentados e ânimas en pena. A gente em idade de trabalhar continua como sempre a buscar a vida fora. Todos o sabemos ainda que os meios de comunicaçom o ocultem.

ESTE PAISINHO VENDEU A SUA ALMA À MORTE. Os galegos escolhem presidente um ministro de Franco ( porque Franco nom se apresenta às eleiçons) e afundem-se com ele sem agonia. Gozosamente emerdados todos.

ESCUITO OS FOTÓGRAFOS DEFENDEREM O FILME FACE À FOTO DIGITAL. Falam com ternura do “romantismo” da foto na que eles se formárom, do seu “lado humano”. Compreendo a sua razom. Porém tampouco esqueço que fôrom eles que matárom a pintura com as suas máquinas, entom tam modernas.

LUCIEN FREUD: É o pintor do século XX.

AEROPORTO. Dous músicos pobres e viageiros: um acordeonista e um violinista.
O acordeonista solta um acorde em direcçom a um meninho viageiro, o meninho logo atende ao reclamo. Outro acorde e um sorriso do músico. Outro acorde e o meninho achega-se e detém-se. O músico toca agora para ele, o seu companheiro, o do violino canta algo ininteligível. Assim, de graça, um obséquio para um meninho qualquer.
E quem sabe, se calhar o flautista de Hamelin nom era tam mau.

AS NOSSAS CIDADES ESTÁM ESTÚPIDAS e os aeroportos som hoje os cruzamentos de caminhos, os lugares onde ainda podemos cruzar camponeses, músicos de feira mágicos, ou o demo com as suas seduçons

E QUE LEMBRANÇAS HAM FICAR NESSA CABECINHA LOIRA, entre as imagens das “Play-Stations” desses dous músicos mágicos e generosos que agora se erguem e marcham para algures chamados polos alto-falantes do aeroporto.

BEETHOVEN. A sua surdez, o seu isolamento do exterior, o seu encerro. A sua surdez fijo-o prescindir do público, dos demais, e isso deu-lhe grande liberdade.
A surdez de Beethoven prefigura a arte moderna: livre, caprichosa e isolada dos demais.

CONSIGNA SILVESTRE: É preciso “piratear” a roupa. Inverter o processo que figérom os proprietários das “marcas” que nos vestem. Colher um traje de Armani, Adolfo Domínguez, e ir junto a um alfaiate, umha costureira, e fazer muitas cópias. Sem marca nengumha, libertar-nos da marca, das marcas.

PAÍS ABUNDANTE: Leio num jornal : “40% das operaçons de cirurgia estética na Galiza som para reduzir peito”. (Ai, essas estrangeiras todas, se comessem mais caldo nom tinham logo que andar pondo silicones!)

[No mar outra vez dende o 11.07.2007]