BOTELHA AO MAR (Setembro-2002)

O TEMPO DE SAM MIGUELINHO. Do arcanjo recebo o meu segundo nome e como o primeiro é tam fundacional, Jesus, e paralisante pois intuo que deve de ser que recebo alento e senso desse Miguel. O meu numen. E procuro-o quando entro numha igreja, às vezes está ali essa figura complexa, o anjo arriba a matar o monstro embaixo. O Sam Miguel é um anjo e mais um demo. Um centauro que se fere a si próprio.

A RELIGIOM É UMHA LINGUAGEM. As religions, as confissons religiosas, som idiomas. Alguns estamos mudos.

A VISOM RESSESSA DA MULHER é caracterizada pola falta do pénis, polo que “nom tem”.
Verdadeiramente, a mulher (XX) é o contrário para nós, os homens (XY): o feminino é exactamente tudo o que nos falta, manca, e nunca jamais teremos, demediados. Elas som donas e nós serventes.

MULHERES QUE FUMAM. Essas mulheres que enchem de fume este bar no que escrevo isto, que fumam degojadas esforçando-se assim em compôr a imagem estereotipada de independência, modernas, mães e esposas que mantenhem e revalidam o seu poder sexual, trabalhadoras capazes…, pessoas esgaçadas por tensons em todas as direcçons…
Estas mulheres que nom me deixam respirar som descendentes sem elas sabê-lo daqueloutras que decidírom imaginar-se livres e donas de si, estas som as netas da Virginia Woolf, da Hanna Arendt, da Mary McCarthy…
Lástima para os meus pulmons que expressem a sua determinaçom botando tanto fume.

CONTRA FRANCO TUDO ERA BOM DE ENTENDER: havia aí diante uns filhos da puta e havia que atacá-los. Mais nada.
Logo aprendemos a matizar, a realidade nom podia ser tam simples, tam maniqueia, buscamos os matizes, procuramos compreender o outro. Aprendemos a ver o contrário nom como um inimigo, mas como um rival, para nom fazer da vida social um campo da guerra civil…Tudo isso.
E agora vai resultar que a realidade é efectivamente umha cousa bem simples: Sharon é um carniceiro assassino, Bush é um imperialista militarista sem escrúpulos, Aznar quer reconstruir a Espanha franquista chamando-lhes deputados aos procuradores em Cortes…

AS NOSSAS TEVÊS EMITEM IMAGENS das máscaras antigas dos israelitas, das haimas domésticas dos kuwaitianos contra a guerra química…, diz que é por se lhes ataca o Iraque.
O certo é que quase nos fam esquecer que o que se está a preparar é o bombardeamento aos iraquianos. Senhores da CNN e demais tevês do império: Tenhem também máscaras e “haimas” antigas as pessoas do Iraque? Ou som monstros que nom precisam?

MUITO GADO É O QUE HÁ. O problema da Galiza é essencialmente o problema gadeiro: há inúmeras ovelhas e muito castrom.

A DISCOTEQUIZAÇOM DOS ESPAÇOS PÚBLICOS. Os meninhos e menihas educados na Espanha de pandeireta e discoteca dos anos oitenta e noventa controlam agora os espaços públicos: o chunda-chunda atroador estende-se por todas as partes, nos supermercados, nos bares…Nom aturam o silêncio, ou o falar, ou o ler. A Espanha é toda ela umha grande discoteca paifoca.

O “DOGMA”. A proposta dos realizadores cinematográficos do grupo “Dogma” é um caminho particular, está bem. Mas como modelo para outros é umha miga umha parvada: Se se prescinde do decorado, da luz eléctrica, das manipulaçons da imagem, de tantas cousas “artificiais”…e por que logo nom prescindir também do guiom, e do argumento? Que os actores improvisem qualquer cousa. E, nessa procura da autenticidade, por que nom prescindir das câmaras? E por que nom prescindir dos actores, que ao cabo som simuladores profissionais? E, já que andamos a isso, por que nom prescindir do director? Ou do filme?
Umha pouca humildade, se fam favor…

O CINEMA É UM SONHO, criado com a imaginaçom, com talento e com recursos dos ofícios artísticos.
Toda a arte é umha humilde criaçom humana, com meios humanos.
E toda a arte é umha mentira, que procura a verdade, mas nom deixa de ser mentira.

“ROAD TO PERDITION”.Os críticos, os realiçadores, falam de que o cinema debe ser assim ou daquela maneira. Fum ver “Road to Perdition” e reconheci-no, aquilo era cinema!
Todo o peso do cinema anterior, da tradiçom, unido ao mundo da imagem de hoje, tambem a TV e a publicidade, todo esse peso vai no filme ajudándo-o a elevar-se e a ir aéreo. Cando o peso do passado vai bem asimilado e forma parte de um, e um dourado lastre que ajuda a voar.

E PODE ALGUÉM SER UM ESCRITOR, UM INTELECTUAL…sem transformar-se num clichê prefigurado e previsível, sem desaparecer o indivíduo sumido na caricatura? Nom sei.

DESDE QUE PERDES A INOCÊNCIA É TAM DIFICIL SER REAL…

SER INTELECTUAL É SER UM LUTERANO: um procurador da verdade através da polémica perpétua. Cos demais, co demais, com um propio.
Um caminho de liberdade, um caminho de agonia diabólica também.

A GALIZA É UM PARADOXO PARALISADO. O paradoxo é dinâmico e criativo, mas a Galiza é tam paradoxal, tam atravessada por contradiçons, que fica bloqueada.

O MEU PAÍS NOM DÁ OPORTUNIDADE NENGUMHA E ASSIM SEMPRE TEMOS UMHA OPORTUNIDADE: Logo de vinte anos a publicar e vinte libros publicados já acreditávamos que tínhamos um lugar feito, um caminho andado visível…e de repente desaparecem-nos, desaparecem os nossos livros das páginas dos jornais, das listas, omitem o nosso nome das relaçons de autores assistentes a actos literários…, e nom passa cousa, nom ocorre nada. E assim a gente, logo de cair, purificada pola destruiçom, emerge renovada e reinicia um ciclo, volto aos começos. E escrevo onde nom mo impedem, na Internet, nestas páginas, nas páginas do David de Ugarte (
MAS FICA O OCEANO. O océano e morte e mais e bálsamo. E a curaçom do mundo.

[No mar outra vez dende o 05.01.2008]