BOTELHA AO MAR (Outubro-2002)

A FONTE DO OURO NUM BAR DE BARCELONA. Essas pessoas som imigrantes de longe,
venhem da América índia, os traços indígenas que vírom os conquistadores
espanhóis e portugueses. Neste bar de Barcelona adoram essa máquina
“caça-níqueis”, alimentando-a com maravilha, com cobiça, com fé e com euros.
Cinco séculos depois fizérom a viagem de volta, da América para aqui, para
encontrarem neste bar do bairro Gótico a Fonte do Ouro que os conquistadores
procurárom antes na sua terra.
SOL EM SITGES. Ai, que doce é o sol dos ricos, morno, levemente cálido,
acarinhando os iates brancos e azul-marinho, enquanto a gente trabalha.
(Talvez a vida de rico seja umha forma de humanismo, nom tenho meios de
sabê-lo. Lástima.).
ESTE FOI O TEMPO EM QUE VOLTAMOS A VER UM MINISTRO CIVIL do Governo Espanhol
fazendo o saúdo militar à bandeira “roja y gualda” e dando vozes à unidade
da pátria, da língua e de nom sei que outras cousas que já esquecim. Como se
nom tivéssemos memória. Volta a Opus e voltárom todos eles. Ou já estavam aí
e agora mostram-se.
EU DE RAPAZ ERA TAM POBRE QUE NEM PARA UMHA BANDEIRA TINHA, FIZEM UMHA DE
TERRA. De miúdos um amigo ensinou-me umha bandeira proibida, primeiro olhou
a um lado e a outro assegurando-se de que ninguém nos via e logo com a ponta
do sapato riscou no chão da terra um rectángulo e umha banda que o
atravessava em diagonal. E depois explicou-me que os dous lados eram brancos
e a banda azul. Logo apagou-na cuidadosamente com o sapato.
Assim que nom preciso de muitos metros de bandeira nem de espingardas,
tambores e trombetas militares nem de vozes de mando e posiçom de firmes. Se
eu quero, quando ninguém me vê, nada mais preciso de umha pouca terra onde
riscar a bandeira com a ponta do sapato, e já. Mesmo num campo de
concentraçom pode a gente ter umha bandeira assim. E cada um fai a que
prefira.
A ESPANHA NAZI. Os bispos espanhóis, aí estám, querem canonizar Isabel “a
Católica”, a do grande “progrom” judeu, a fundadora dum estado confissional,
a da “doma e castraçom da Galiza”. Estes bispos, sucessores dos que ganhárom
a Guerra Civil e governárom com Franco, conseguem surpreender ainda os que
os conhecemos.
Nom irá Franco depois? (Ai, para que lhes darei ideias).
IAN McEWAN, um romancista estimável, diz numha entrevista que prefere nom
ser um intelectual público. Mas, a perguntas da entrevistadora acaba por
opinar e diz os lugares comuns baseados nas “informaçons” diárias que
subministra a máquina da propaganda da administraçom norte-americana.
Puerilidades que num ingénuo som inocentes e que num informado son
culpáveis.
Quanto nos custa cumprir o que dizemos, é tam difícil. Se alguém sabe que
nom é um intelectual e que nom deve opinar em público deve calar a boca. Os
silêncios fam muito mais atraentes as pessoas, os loquazes nom aprendemos.
O MUNDO DOS NOSSOS AVÓS era miserável em tantos aspectos, submetido aos
poderosos servilmente, fame, enfermidade, medo…O nosso mundo é outro,
todos temos mais comodidades e bens, menos opressom, mais
televisom…Pagamos tudo o que temos em senso. O nosso mundo está falto de
senso, de realidade e substáncia.
BOMBA EM HELSINKI. Um adolescente matou-se e matou sete pessoas cumha bomba.
Fabricou a bomba baixando a informaçom da Rede. Internet é também isso: umha
perda da inocência, umha desapariçom da aldeia sem volta atrás. Os
finlandeses descobrem de súbito que estám num mesmo mundo caótico,
imprevisível, violento…
SE MUDEI é que me perdim polo caminho.
PASSEI UNS DIAS NA CATALUNHA, lim imprensa catalá: que alívio ler imprensa
democrática, comum, sem mais.
UMHA MOSCA NO AEROPORTO! A vida é incorrigível, mesmo se adentra nesses
lugares mortos que transitamos os vivos hoje.
ESTATÍSTICA HIGIÉNICA: 4 homes urinando num reservado, três vam-se sem
lavarem as maos. (Quem fai mal, o que lava as maos ou os que nom?) Como para
andar-lhe dando a mao à gente.
SOBRE OS MAPAS E AS TERRAS. É tam trivializadora a imagem que dam os meios
de comunicaçom de todos os lugares. Essa Almeria de folclores
hispanofranquista…, eu agora do aviom enxergo umha Almeria selvagem de
serras brutais e vivas. Nos seus pés, na sua aba, umha salpicadura de
plásticos, estufas. Nom som nada, se tosse a serra voam para o mar todos.
RUMO A MELILHA. Estou sobre o mar rumo à África, já o esquecera! As colónias
som isso, a negaçom do lugar, neste caso da África. As imagens criadas pola
ideologia colonial impedem-nos ver a realidade.
MELILHA: Plaza de España, monumento enorme: “Una, grande y Libre”,
Confecciones Castilla, Foto Imperial… Isto nom tem amanho. E poderia
tê-lo, e devera tê-lo.
Mas os colonos vivem dentro dum velho postal virado a sépia e preferem
ignorar a evidência do mapa: estám na Africa, na terra dos berberes.
AQUI OS MARROQUINOS, os “mouros”, nom som como nas grandes cidades
espanholas ou francesas, suspeitos. Aqui vivem na subordinaçom, som umha
realidade emudecida dentro desta cidade colonial, mas apesar disso estám no
seu território, nom som gente arrancada, som pessoas integradas no seu
mundo.
NOS E.U.A. HOJE DETIVÉROM UM HOME E UM MOCINHO que matárom dez pessoas com um
rifle ao longo de vários dias. O home aprendeu a disparar no exército do seu
país, logo oficiou no ataque dos EUA e os seus aliados ao Iraque. E agora
vê-se que tinha saudades do seu ofício e pujo-se a praticar por livre.
Ser assassino também che é umha profissom como hai outras. E sempre hai quem
cha ensine. Um exército, por exemplo.
APRESENTAR UM NOVO ROMANCE A MADRID. Alá vou dentro dum par de dias, e como
sempre grandes expectativas, e como sempre logo inevitáveis e surdas
decepçons. Somos os carrascos de nós próprios e façemos da vida a corda que nos vai afogando.

[No mar outra vez dende o 05.01.2008]