BOTELHA AO MAR (Março-2003)

TURBULÊNCIAS A BORDO. Voando nos avions temos oportunidade de viver várias vezes a iminência do “momento final”. Temos feito repetidas vezes os preparativos para a nossa morte.Temos feito exercícios espirituais a bordo.

QUE A GALIZA VIVE HORAS EXTRAORDINÁRIAS desde há uns meses parece-me evidente. Umha evidência persoal é que até agora mesmo, que ando num aviom para Madrid, nom pudem suspender este tempo ansioso e nom pudem sequer escrever umha anotaçom como a anterior. É a primeira em meses (e esta, a segunda). Con todo, sigo superado polo que se demanda de mim, polas cousas às que eu mesmo me obrigo. Há passar, há passar. E de tanta canseira ha ficar umha força nova, estou certo.

FRAGA IRIBARNE já tinha antes o olhar astuto do canalha e as maos sujas de sangue inocente. Agora, além disso, também tem as maos cheias de merda e chapapote.

LENDO “Felizes como asassinos” (“Happy Like Murderers¨, de Gordon Burn), investigaçom sobre um matrimónio británico de torturadores sexuais e assassinos. Mareia e suja. É como mergulhar-se em gándaras fétidas e temíveis. Fai que temamos o sexo, que olhemos dentro de nós próprios com pavor e nojo.

NUM AVIOM, surpreendo a moça que viaja no assento contíguo com umha expressom de beatitude no rosto, está linda com esse esgar inocente (numha primeira impressom parecera-me umha moça vácua). Sigo o seu olhar, que cousa está a ver? E aí está a pantalhinha para distracçom da passagem a passar um desfile de modelos.

VIVEMOS SOBRE UMHA PELE. Voando percebe-se que a terra, orgánica e cultivável, é umha pele fina e mesmo descontínua sobre um mundo imenso e mineral. E nós com toda a nossa megalomania, habitamos sobre essa fina pele. E temo-nos polos donos do mundo.

MESMO ESSA FANTASIA DO HOLOCAUSTO NUCLEAR, de que havemos fazer rebentar o planeta num estouro é megalomania. Um dia, umha hora, um instante, o mundo, o planeta, sacudirá essa leve pele velha e nós iremo-nos com ela. Simplesmente.

SARTRE, fijo espectáculo do compromisso?

QUEM É VULCÁM, expressa-se a labaredas. (Também co fume.)

HÁ UM TIPO DE LITERATURA, sabemo-lo, que só se pode escrever quando se chega a umha idade, ou quando se é um sobrevivente dumha catástrofe: a testemunha da orfandade do “eu”. Figem os quarenta e sete anos, vive toda a minha gente, mesmo quase todos os meus amigos. E os meus inimigos. E já estou canso, gasto. Como se fosse marchar eu diante de todos. E como se nom fosse ter esse privilégio do conhecimento que dá a um escritor a idade e, ou, a sobrevivência. Acho que nom escreverei elegias. Con tudo, melhor assim, melhor que sobreviver a quem um quere.

O CONFORTO. A gente esta aí fóra, e passa encolhida pola chuva e o vento, e eu aqui dentro, a olhá-los, sentado confortavelmente. Nom existe o conforto para um se nom há outros que andem na intempérie.

A RESPONSABILIDADE DO INTELECTUAL? O saber fai-nos responsáveis do que sabemos, o conhecimento ata-nos. A mais conhecimento, mais responsabilidade. O intelectual ou é responsável ou é culpável.

OS LIVREIROS DA GALIZA DÉROM-ME O SEU GALARDOM, “IRMANDADE DO LIVRO”, fôrom valentes. E forom castigados. O prémio que todos os anos tinha sona e muito espaço informativo este ano quase desapareceu. Condenado a desaparecer, se som premiado também fam desaparecer o prémio. O mau de carregar cumha “fatwa”, umha maldiçom, é que essa condenaçom também atinge quem se achega a ti. A minha gratitude e as minhas desculpas, prezados livreiros.

MAS OS QUE CENSURAM INFORMAÇOM, que querem matar vozes, som parte da velha Galiza. Som passado, há umha nova Galiza que ainda nom tem expressom oficial nim mediatica. Mas existe.

INVASORES. A 22 de Agosto de 1939 Hitler pediu ao seu estado maior que procurasse umha escusa para justificar a invasom do Iraque, quer dizer da Polónia: “Ninguém vai perguntar ao vencedor se dixo ou nom dixo verdade. Temos de agir com brutalidade: a razom está sempre do lado do mais forte.”O senhor Aznar cita muito nos últimos meses Churchill (que em vez de invadir um país afrontou bombardeios e um intento de invasom!). O que é seguro é que o seu amo, Mr. Bush, quem leu foi o Hitler.

QUEM MATOU A DEMOCRACIA NOS EE.UU. de America? Nom foi um inimigo exterior, a democracia esta-lhe a ser roubada aos cidadaos norte-americanos polo seu goberno e polos próprios meios de comunicaçom social norte-americanos. O inimigo está dentro.

E LOGO ESSE CHEIRO A CARNE QUEIMADA QUE CHEGA DESDE O IRAK? E um banquete de festa ou e um sacrificio.

[No mar outra vez dende o 03.07.2008]

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