Botelha ao mar 6 (Fevreiro-2001)

REBELIOM NA GRANJA. Nom há tanto os pobres nom comiam carne nem ovos, a nossa civilizaçom foi quem de produzir carne e ovos industriais e hoje até os pobres provam a carne quase a diário. Para isso foi preciso criar campos de concentraçom de animais, para isso a agricultura transformou-se em indústria e a indústria alimentar em especulaçom. Nesta alimentaçom industrial reapareceu o velho sudre que antes andava polos caminhos aldeias, agora o sudre corre por todos nós. As nossas vítimas rebelam-se e transformam-se em bombas alimentares ambulantes. As vacas tolearom e figerom-se homicidas.

NINGUÉM QUER SABER QUE COUSA OCORRE NA ESCOLA. O governo, a sociedade, ninguém quer saber o que vem os mestres. Os que nom estám cegos vem diante o novo mundo que estamos criando: rapazes criados sem grande atençom por parte dos pais, criados na ausência de valores cívicos, morais. Som as primeiras geraçons de perfeitos consumidores. Donde saimos estes pais que os criam assi? Quem nos criou assi? Quando começou todo?

OS INSTRUMENTOS DE CORDA que com a sua vibraçom constróem a escada que vai da terra para o céu, as frequências sonoras que levantam o mundo e o fam levitar. E todo está tirado da tripa de um animal. Os mais grandes mistérios estám na tripa de um animal.

TINGIR O CABELO. Tanta gente, mulheres, homens também, que tingem os cabelos: cansaço de si próprios, medo a ser elas, eles, medo a ser alguém concreto?

ARRANCA O AVIOM E LEVANTA DO CHAM. Acho em falta o hábito de persignar-me, como fai essa senhora ao meu lado. Acho em falta, sempre, o rito que dea significaçom, senso. Sacralizaçom. Todo o que perdim.

OS JUDEUS EUROPEUS forom a amalgama da cultura europeia: já nom os hai, já nom a hai.(E que foi de toda aquela cultura alemá sem eles?)

MAS OS PALESTINIANOS ESTÁM A SANGRAR, aí e agora.

NO AEROPORTO, NA LOJA DA CASA “WARNER” a empregada pergunta o meu destino. Nom quero dizer-lho, eles nom tenhem porque saber isso e a mesma pergunta já é umha impertinência: simplesmente consigo que a moça se sinta envergonhada e nom saiba como fazer-me o recibo da compra. Finalmente, digo-lho, vou a Santiago. Sempre vou a Santiago.

A IMPRENSA LIBRE É A QUE NOS PERMITE SER CIDADÁNS, QUANDO NOM É LIBRE TAMBÉM É A QUE NOS CONDENA A SER SÚBDITOS. A imprensa de Espanha, mui concretamente a de Madrid, algum dia terá de fazer-se umha autocrítica por ter ajudado a que a democracia espanhola chegasse a esta crise que vive. O fracasso da imprensa e da liberdade de expressom é o fracasso da democracia.

ESQUECEMOS QUE A LIBERDADE NUNCA SE TEM, SEMPRE SE LOITA POR ELA. Agora reaparece o nacionalismo espanhol franquista, mas esta vez nom com a ponta do fusil do Exército senom por meios parlamentares, e ficamos surpreendidos, como é que volta o passado, se já passou? Esquecemos lembrar sempre, e ensinar-lho aos nossos filhos, que hai que ser sempre antifascistas, que hai que ser sempre antifranquistas.

CABROMS, PUTAS E MARICALHOS: som os nomes das vítimas. Aprendemos a agredir, alcunhar, ofender com esses nomes definitivos, derrotas e ofensas absolutas. Som os nomes dos burlados, das mulheres forçadas nos bordeis, dos homens forçados nos cárceres, das pessoas com a identidade destruída. Os últimos dos últimos. Agora tomamos consciência dessa perversom, nom podemos seguir identificando o que é odioso com os perdedores, pois os perdedores nom som odiosos. Só é odiosa a opressom do débil. E já nom temos nomes para alcunhar para ofender, que lhe podemos chamar aos odiosos? Os mais eficazes logros expressivos dam-se no maldizer e a nossa consciência deixou-nos sem palavras para acalonhar.

INTERNET É OUTRO ENREDO PARA FUGIR DO SILÊNCIO, PARA EVITAR ESTAR EM PRIVACIDADE COM NÓS PRÓPRIOS. Estou aqui, estás aí e escapamos de nós. A nossa vida é um fluir entre bandas sonoras, ruídos e imagens, sempre a escapar da vida.

HOSPITAIS DA DOR. Hospitais, cavernas cheas de dor, precisamente ali a gente e máis solidaria, ums achegan-se aos outros e valen-se e contan-se as vidas, doendo-se uns das penas dos outros.
Ha amizades nacidas de convalecencias tam intimas como as dos rapaces. Cando logo aqueles amigos tornan a vida diaria procuran esquecer a vergonha de ter volto a ser rapaces amigabeis naquel estadio de debilidade.
A dor achega as pessoas, nom ha solidaridade se primeiro nom houbo padecemento.

O PAN FIXOSE BRANCO, E O AZUCRE, O ACEITE FOI REFINADO E AGORA E MAIS CRARO…, fomos-lhe tirando o sabor a todo. Ja nom aturamos o sabor da vida.

E MOI COMUM HOJE NA CULTURA ESPANHOLA INVOCAR O NOME DO VALLE-INCLAN e celebrar os seus retratos literarios tan terribeis, lucidos e despiadados da sociedade e da cultura da súa epoca.
Mais no seu tempo foi visto como um rosmom extravagante que nada mais via os defectos.

HOJE RETRATAR A VIDA ESPANHOLA SEGUE A SER igual de incomodo, a umha testemunha incomoda ninguem lhe agradece cousa. Na Espanha de hoje tampouco son queridos os intelectuais libres.

AS IDEOLOGIAS seguramente som precisas: o propio humanismo democratico e umha ideologia. Mais a ideologia e um “aliem”, um pole invisibel que entra en nos e nos posue.
Eses mozos que matan gente cumha bomba, que disparam na caluga de gente desarmada…, aí no País Vasco, tam perto. A ideologia e um monstro que os posue.

A GRANDE UTOPIA: que nom houbese falta de Amnistia Internacional