Botelha ao mar (Fevereiro-2002)

BOTELHA AO MAR (FEVEREIRO -2002)

VEJO NA T.V. uns “indígenas”, “aborigens” (Todos somos indígenas dalgum
lado, ou já nom?). Ali estám com as suas pinturas no corpo e as suas danças, a ser
depredados pola cámara para nós, os telespectadores.
Também eles som precisos no planeta TV, também eles trabalham no mundo do
espectáculo.
Verdadeiramente todos somos já aborigens do Planeta TV.
Poida que em chegando a casa tambem eles vejan aborigens na sua TV.

OS ANIMALINHOS DOS DOCUMENTAIS nom som selvagens, eles também trabalham
nesse mundo do espectáculo.

ELES TERIAM DESAPARECIDO EXTERMINADOS, como forom os indígenas norteamericanos, se nom for porque a nossa civilizaçom chegou a este estádio em que todos somos consumidores de imagens: por isso é
preciso conservá-los, para organizar ali safáris, turismo, e para essas
reportagens de TV e de “National Geographic”.

O POETA E O LUGAR: Claudio Rodríguez escreve desde a sua terra seca zamorana.

MIGUEL DE CERVANTES E SAAVEDRA levava os apelidos de seus pais da aldeia de
Cervantes (Lugo); Frei Luis de León era de Sárria (Lugo) e eu, de Toro,
som de Santiago. E assi e todo os apelidos, esses nomes que venhen do
remoto, abrem-se passo: Zamora, esse lugar imaginário, chama-me mais alto a
cada día.

O ESTADO INVADE-NOS, reúnem-se muitos Chefes de Estado na minha cidade e a
cidade deixa de ser minha, tua, sua, nossa dos vizinhos. Estes caseiros do
Estado trazem com eles 4.000 polícias e ocupam-me a minha cidade, toda para
eles. Cidade estatalizada, militarizada. O Estado a cada vez mais policial e
militar.
Bush marca o caminho e os criados andam ao passo da oca.

VENHO DO QUIOSQUE com umha bolsa plástica cheia: 2 jornais (“El País”,
“T.L.S.”), 2 livros (“El espacio vacío”, Peter Brook; “Tiempo”, J. R.
Jiménez), 2 vídeos (“Hamlet 1ª parte” do K. Branagh, “Othello”……….).
Cruzo com umha mulher que traz também umha bolsa plástica, assomam os
vultos das laranjas, folhas de verdura, chícharos…Ela vai-lhe dar de comer
à gente. Eu levo folhas secas, objectos mortos. Quanto nom fazemos o parvo alguns.

A IMORTALIDADE. Nom criamos para que se nos lembre, isso é impossível para
as pessoas que nom nos conhecêrom quando estávamos vivos. Queremos criar
obras de arte duradoiras para que os nossos descendentes tenham cousas para
celebrar, mesmo comemorar. Queremos dar-lhes rito e senso; completar,
desgraciadamente mesmo suplir, a religiom.
Para que podam olhar atrás, para que tenham passado e imaginem futuro.

LOCUTOR DE TV: “Nació en un pueblecito alemán de nombre casi
impronunciable”. Nom é que “seja impronunciável”, é que tu nom o sabes
pronunciar, burro velho.
As culturas monolíngües e que fiam nas alfándegas som inconscientemente
xenófobas.

PORTO ALEGRE, alegria que se derrocha e estende, frente à usura dos
poderosos verdugos.

A VINGANÇA DOS ESCRAVOS. A través da “MTV” os pretos norteamericanos
conquistam o mundo a golpe de ritmo.

NO HOTEL DESTE POVO, MUNGIA, perto de Bilbao, tenhem umha pintura ao óleo na
entrada: vacas, mulheres antigas, casas aldeás. Mais na pantalha da TV acesa
brinca sincopada umha mulher americana e canta em inglés. Nom, o
passado nom existe.

PAIS VASCO, aqui a ternura semelha um bem escasso.

MAS AQUI UM COMPREENDE QUE A GALIZA desconhece a firmeza. Nada haverá, nada
poderá ser construído sobre a areia.

EM EUSKADI um vê que foi, que é e que será, mália que nom goste a outros.Con tudo, logo se passa da firmeza á teimosía.

UM NOM DEVERA VIAJAR, logo regressa e quer melhorar as cousas, o país. E
assim nasce todo disgosto e todo sofrimento.

NOM DEVÍAMOS VIAJAR. Ou bem marchar para sempre.

E POR QUE GOSTAREI TAM POUCO DOS VALSES VIENESES?

[No mar outra vez dende o 11.12.2006]

Botelha ao mar (Decembro-2001)

BOTELHA AO MAR (Decembro-2001)

E QUE HAVIA DE FAZER UM SE FICASSE XORDO? Sem poder ouvir música, essas
pingas,
lágrimas, de céu que entram pola orelha. Teria de inventá-la dentro.

SOMOS GERAÇONS PERDIDAS, o meu país devora impertérrito geraçons inteiras.
Só quem emigra se livra. Emigraçom, um dos nomes do exílio.

TAMBEM A VIDA MESMA DEVORANOS UM A UM E TODOS POR JUNTO.

“A VIDA SEXUAL DA CATHERINE M.”, é um livro surpreendente por revelar um
vazio tam grande e cruel e frio. O sexo é um pequeno jardim que nos oferece
a vida no caminho. Mas, no jardim adoita ter a serpe o seu tobo; o sexo
também pode levar dentro um inferno têmero.
NESSE LIBRO, RECONTO SÓRDIDO E ESGOTADOR DE PENETRAÇONS E CARNES BRANDAS, TENSAS OU
LACERADAS, Catherine Millet continua umha tradiçom, mui francesa, de
investigar o sexo ensimesmado, carne fria, autópsia do sexo. Um relatório
fatigoso, sexo numérico, vágado, na estela dos pesadelos do Marquês de Sade
encerrado na sua masmorra, a tristeza de Michel Leirís, Bataille, Genet,
Sartre, Foucault…
MAS , ESTOU CERTO DE QUE CATHERINE MILLET TERA TAMBEM, quiçá mais que
ninguém, umha melancolia mui grande encerrada nalgumha cela intima. O discurso
do sexo argumentado, à maneira de um pesadelo da Razom, é o seu cárcere.
Falta-lhe umha chave feita das palavras que libertem o seu coraçom.
Há umha cousa mui triste nessa França tam inteligente. Que é que lhes falta,
que é que perdêrom?

DOUS ADOLESCENTES XORDO-MUDOS pola rua, amam-se por senhas. Sem palavras, só
acenos e olhadas, o seu amor juvenil semelha mais limpo ainda.

A CADA VEZ QUE VEJO NA PANTALHA UM SPOT DA COCA-COLA, eu dentro de mim cago
por ela. Lembrem, quando a bebam, que houvo um porco que cagou nela.

NA COSTA BRAVA, AO PÉ DUM FARO ESGRÉVIO E SOLITÁRIO, chega o auto de umha
gente de excursom. Param e abrem as portas do auto, sai de alí a súa música
a todo volume. Nom aturam aquel lugar quase selvagem e deixam a sua pegada,
também eles deixam a sua cagada, o ruído infame.

COMO JÁ NOM HAI IDEOLOGIA, ninguém reparou muito no tremendo machismo das
histórias de Harry Potter.
A literatura fantástica, por nacer separada da realidade social, tam
nascida da cámara do subconsciente reproduze o nosso mundo íntimo. Os
autores de literatura fantástica, essa mulher que escreveu o Harry Potter
também, propendem pois ao machismo que vai en nós.
A magia do H. P. nom é mala, mas podia melhorar.

DEIXEM EM PAZ A SALINGER. Jornais que reproduzem fotos que lhe fôrom
roubadas, tiradas sem o seu consentimento. Os comentaristas rejoubam con
essa vontade sua de estar apartado dos “media”, curiosamente essa vontade
sua fai-no mais atractivo para os “media”.
Salinger, que procurou a discreçom mais absoluta, vê agora como umha mulher
a quem hai anos escreveu cartas de amor publica-as. Vê como a sua filha
publica as cartas que num tempo seu pai lhe escreveu.
A inocência, ou a procura da virtude, estimula mais os miseráveis.

O CANTO DAS SEREIAS. Ulisses escuitou, atado ao mastro do navio, o canto das
sereias. Desde aquela é um homem marcado por ter escuitado esse reclamo.
Perde o interesse em toda cousa, só quer tornar a escuitar aquel canto,
voltar junto delas. Ainda sabendo que vai ser aniquilado.
Ou foi o astuto filho de Laertes o que as aniquilou, pois já nom cantam?
Ou tera-o inventado todo el, fantasía de marinho exótico e fanfarrom?

UMHA MAI DÁ A MERENDA ao rapazinho na paragem do bus. O meninho abre a boca
e engole o iogurte que ela lhe dá com umha colherinha brilhante que trouxo
da casa, logo limpa-lhe a boca. Todo ali de pé, no passeio, na paragem
entretanto nom dá chegado o bus. Tanto carinho alimentício para que o rapaz
medre sam.

UM CANSA DE SER UM PRÓPRIO, é duro de mais ser sempre um. O mais duro é
encarnar a um mesmo pola manhá, adoptar um dia mais essa cara dum mesmo.

QUEM PUDERA EMIGRAR DE SI PRÓPRIO. Sem malas e deixando todo atrás. Às
vezes. Se nom fosse polas pessoas que um quer e que atam e condenam a viver
a própria vida.

AI, PALESTINA, meninha rebentada en bolboretas vermelhas. E o mundo a contemplar-te.

[No mar outra vez dende o 12.11.2006]

Botelha ao mar (6-Outubro-2001)

Vinme difamado desde um poder ao que nom tinha medios para combater. Alí estaba eu lambendo nas feridas, cavilando en volver o golpe, no fundo da minha cova de fera acurralada. Vivía a impotencia, o nom poder contestar, pois so o poder era dono de toda a palabra, lembrei a um velho louco que andaba anos atrás a escreber nos muros. A destrucción, a loucura.
E estando atordoado na contemplaçom da minha miseria chamáronme de súbito: o meu rapaz nom baijara na sua paragem do autocarro e nom se sabia del.
Nom foi nada ao cabo. Namais o susto tremendo, mais pasageiro. Sen embargo toda ofensa e toda ira ficou esquecida varrida polo corazóm que trema encolhido dentro do maior horror: a desapariçom (afortunadamente momentanea) de quem se quere.
Os tiranos sempre nos han ganhar, pois somos vulnerabeis: temos persoas amadas. Nom nos damos centrado exclusivamente na vinganza. Mais vivimos na vida, nom entre as sombras da cova seca do poder.
Iso si, quizais volva ganhar as eleciomas galegas Fraga Iribarne coa súa corte esperpentica de caciques, medios de comunicaçom adictos, escritores e columnistas comprados e o velho habito de difamar impunemente, como naquela velha e doce epoca do tirano, cando era ministro da censura e da propaganda do Franco. Ai, que bos velhos tempos. E no eclipse da sua carreira, Fraga Iribarne, que se disfrazou de Manuel Fraga para a farsa dums anos de democracia espanhola volve a presentarse como quen é, Fraga Iribarne.

[No mar outra vez dende o 23.09.2006]

BOTELHA 8 (Maio 2001)

O CINEMA DE BERGMAN REALMENTE POUCA SUBSTÁNCIA TEM, mas as suas reiteradas
histórias de adultérios e segredos pessoais, que só dariam para um
incidente de dous minutos numha telessérie, som tratadas com tanto e tanto
respeito e intensidade que lhes espreme absolutamente toda a substáncia.
Bergman fai um caldo quase somente com o osso do pucho, mas o caldo mantém
e sabe.

O AMIGO DAVID DE UGARTE PUJO ESTA PÁGINA NA LETRA UNDERWOOD porque a
estética subjacente lhe recordou este tipo de letra, essa máquina do
desenho na cima da pagina principal. Empecei a escribir numha maquina Underwood, e certo. Lapises, penas, Macintosh…, as queridas ferramentas do meu oficio.

“ALVARITO”. O político que lhe escreveu um recente discurso ao Rei da Espanha, outro
político, e que este leu para o mundo cantando as glórias do castelhano,
afirma que este idioma nunca foi imposto, nem na América colonizada nem aos
galegos, bascos, cataláns. Tampouco houvo conquista e colonizaçom, os
nativos americanos morrêrom sós depois de escavar nas minas e trazer para a
Europa voluntariamente a prata e o ouro. Tampouco houvo imposiçom aos nenos
nas escolas espanholas. Nom houvo tampouco franquismo. Ademais, é certo o
que nos aprendêrom de meninhos na
escola, que Espanha é una, grande e livre.
Tal como vai a cousa as minhas ideas, a minha cultura acabara prohibida de novo. O meu nome na clandestinidade foi “Alvarito”, ¿terei de ir pensando outro?

O NACIONALISMO ESPANHOL ESTA TAM LEVANTADO, arreganha tanto os dentes. E
por riba di que nom existe, é um nacionalismo que se quer invisível.
Pois existe, caralho se existe. E padecemo-lo muitos. (Chist, nom digas
isto. Ham-te chamar terrorista ou cousa assim! )

E ENTRE AS SUAS PRIMEIRAS VÍTIMAS ESTÁM OS CIGANOS, gente sem terra e sem
estado. Aí diante de nós está umha gente, umha minoria étnica ou como se
chame, que existe sem território mais nom é reconhecida. Algum dia haverá
que fazer umha sociedade democrática que reconheça também essas pessoas.
Algum dia terám um estado que os proteja, sem necessidade de perder a sua
identidade, algum dia a sociedade espanhola, e outras sociedades europeias,
verám o que tenhem diante. Esse dia os ciganos serám resgatados do papel
de estraperlistas das drogas ilegais a que os tem relegado a sociedade.
Essa sociedade que é a que consome essas drogas.
ENTRETANTO VEM COMO A SUA IDENTIDADE LHES É ROUBADA, a cultura dos
ciganos andaluzes é desde o século XIX a imagem de marca de Espanha. Ciganos
toureiros, guitarristas, cantaores…que divertiam os senhoritos sevilhanos
e madrilenos continuam a ser o logótipo da cultura espanhola.
E os seus legítimos donos… que recebem em troca?
Senhoritos e senhoritas sevilhanos com traje de cigano subidos num cavalo
Pola Feria de Sevilha, de Xerez. Um dia ciganos orgulhosos baixaram-nos a
hóstias do cavalo e tiraram-lhes os trajes.

QUE ESCUITEMOS A NICK CAVE (AND THE BAD SEEDS) nada mais se explica porque
temos saudades de sacerdotes com fé fanática e furiosa. Umha fé triste e
desesperada num Deus amargo.

CUMPRE ALTERNAR COM O VINÍCIUS DE MORAES E O TOQUINHO, pois cumpre acalmar
a dor das feridas do cilício. O Brasil, tam grande como terrível, é também
um grande deposito de doçura. Doçura suave e morna.

NOM SEI SE QUEM ESCREVE ESTAS NOTAS, TAM AMARGAS. Se som eu ou a minha imagem
de escritor. Eu sei bem quem escreve os meus livros, se eu ou a minha imagem.
E nom sei se já nom me tenho convertido na minha imagem. SE CALHAR,
ATRAVESSEI O ESPELHO.

UMHA MULHER TOLA SENTADA num banco público a falar. Alguém, um escritor,
que senta perto dela para espreitar, escuitar. Há quem rouba carteiras, mas
olho com os que roubam anacos de um.

ESSA MULHER QUE ANDA COM SALTOS, CALÇAS DE COIRO MUI CINGIDO QUE LHE
APERTA E MODELA AS NÁDEGAS…, está a jogar um jogo mui antigo, o jogo
dramático da vida.

TIREI O RADIOCASSETTE DO AUTOMÓVEL, agora cantamos, contamos contos, falamos, aborrecemo-nos em
silêncio uns junto aos outros.

ÀS VEZES, QUANDO É NOITE, RESGATO-O E, ENTOM, a viagem é umha viagem
também por dentro da minha sensibilidade.

PORQUE A MUSICA É TODA INTERIOR, “MUSICA RESERVATA”.Um só se ouve decerto quando nós próprios nos
transformamos na câmara de ressonância.

MOZART OUVIA A MÚSICA INTEIRA DENTRO antes de transcrevê-la. E Beethoven
começou a ouvi-la quando ensurdeceu do ouvido para fora, entom ficou a sós
com a música, dramáticamente encerrado com ela. Por isso as interpretaçons nunca som
gratificantes, sempre som umha
frustraçom. As ideias, os números e a beleza mais abstracta nom encarna.

ENVOLVEN-NOS TANTO OS “MEDIA” COA SUA BANDA SONORA E A SUA TORRENTEIRA INCESSANTE DE NOVAS CANÇONS,
QUE PASSAM UMHAS E DEPOIS OUTRAS, que já nom sabemos cantar nengumha. Para
aprender umha cançom cumpre escassez, pobreza. No nosso tempo mediático nom
é possível deter-se, suspender o tempo, ensaiar umha e outra vez ata memorizala. É imposibel ter memória.

ANDO A ESCREBER CANCIOMS PARA UM GRUPO DE MULHERES, “LEILÍA”. O seu canto é o canto popular e antigo desta parte do mundo em que eu
vivo, cantos de trabalho, de namorar. Já nom se canta enquanto se trabalha,
tampouco para namorar (penso).
E que tam difícil nom é simular a inocência, imaginá-la, meter-se dentro.
E que difícil nom é alcançar as formas de beleza e engenho da inocência.

TAMBEM É DIFICIL ESCREBER LIBROS DE VALOR, tambem. Ha tanto a
atender, sucessos, aniversários, obituários…., que nom se pode com tanto
ruído.
O problema é a pobreza de experiência vital, apagada e substituída pola
informaçom. Um escritor precisa ter lido antes e logo seleccionar e vivir na pobreza.
Ainda que fose quem nom deberia andar todos os caminhos estéticos posibeis, non debería andar cara todas direçoms. Debo lembralo, debo lembralo, debo lembralo…

AMDAM ESTES DIAS CO OBITUÁRIO DO LUDWIG WITTGENSTEIN, nom vou dizer que o
conheço. Os dous livros que tenho del na casa estam sozinhos sem as minhas
carícias. Somente digo que tenho para mim que Wittgenstein gosta tanto aos
meios de comunicaçom porque é atractivo. O seu caminho atormentado é tam
característico que mesmo parece umha pose. Esse par de livros nom haviam
ser tam famosos se fossem escritos por um catedrático regordecho pai de
família que morreu velho, em vez daquele herói moço, esquivo e fosco.
Tanto tem, pobre Wittgenstein que viveu só e morreu só. Nem sequer
chorárom por ele os meninhos da escola dos Alpes a quem bouraba abondo,
segundo referem.

OS MEDIA SOM MUITO ANGLO-SAXONICOS, as suas personagens preferidas som pessoas duras e
sem carinho.
PENSO QUE O WITTGENSTEIN FOI OUTRO CAMINHANTE máis polo caminho alemám. Umha viagem a traves das palavras, da filología, polo tempo, cara atrás, cara terras de brétema. O positivismo nom é máis que umha barreira de fume.

NO AEROPORTO DE BARAJAS: Achega-se um homem novo estrangeiro a umha moça no
Escritório de Informaçom do aeroporto e pergunta-lhe num mui bom
castelhano: -¿Se puede fumar? -Está prohibido -responde ela. -Pero la gente
está fumando…-comenta el desconcertado e sinala a gente ali a ladinho
deles fumando todo o tipo de charutos com muito fume. -No se puede. Está
prohibido. Pero la gente fuma al lado de los ceniceros…-Ela própria vê
que a cousa é umha miga contraditória e remacha-. Nosotros no le podemos
decir nada.
O homem vai-se desconcertado, com certeza sopesando se pode, deve, fumar ou
nom. Vê-se bem que nom é de país católico e nom entende de
irresponsabilidades. Eu nom podo evitar rir e a moça também ri comigo.

O ESCRITOR É UN USUREIRO que conta, reconta e acarícia a sós as suas
moedas, palavras e livros.

O ATRACTIVO QUE TEM ÀS PESSOAS EDUCADAS TRATAR COM ARTISTAS: É
interessante contemplar selvagens amestrados e sem unhas. Ou meninhos civilizados que simulan ser salvagems. En calquera caso, son animalinhos ben curiosos.

INICIO A LEITURA DE BRAM STOCKER na soleada praia de Málaga sob este
sol: nom tem sentido. O vampiro existe entre brêtemas no meu país ou lugar
semelhante.
Nem sequer sei como a morte se atreve a apresentar-se aqui com tanto sol
alegre. Quem sabe, se calhar é este geladeiro que se achega sorrindo.

OLHAR-SE NUM ESPELHO OPACO até ver-se alô no fundo.

PEDRAS LUÍDAS. Acariciar as palavras até fazê-las falar, que digam as vozes
que levam dentro.

[No mar outra vez dende o 14.09.2006]

Botelha ao mar 6 (Fevreiro-2001)

REBELIOM NA GRANJA. Nom há tanto os pobres nom comiam carne nem ovos, a nossa civilizaçom foi quem de produzir carne e ovos industriais e hoje até os pobres provam a carne quase a diário. Para isso foi preciso criar campos de concentraçom de animais, para isso a agricultura transformou-se em indústria e a indústria alimentar em especulaçom. Nesta alimentaçom industrial reapareceu o velho sudre que antes andava polos caminhos aldeias, agora o sudre corre por todos nós. As nossas vítimas rebelam-se e transformam-se em bombas alimentares ambulantes. As vacas tolearom e figerom-se homicidas.

NINGUÉM QUER SABER QUE COUSA OCORRE NA ESCOLA. O governo, a sociedade, ninguém quer saber o que vem os mestres. Os que nom estám cegos vem diante o novo mundo que estamos criando: rapazes criados sem grande atençom por parte dos pais, criados na ausência de valores cívicos, morais. Som as primeiras geraçons de perfeitos consumidores. Donde saimos estes pais que os criam assi? Quem nos criou assi? Quando começou todo?

OS INSTRUMENTOS DE CORDA que com a sua vibraçom constróem a escada que vai da terra para o céu, as frequências sonoras que levantam o mundo e o fam levitar. E todo está tirado da tripa de um animal. Os mais grandes mistérios estám na tripa de um animal.

TINGIR O CABELO. Tanta gente, mulheres, homens também, que tingem os cabelos: cansaço de si próprios, medo a ser elas, eles, medo a ser alguém concreto?

ARRANCA O AVIOM E LEVANTA DO CHAM. Acho em falta o hábito de persignar-me, como fai essa senhora ao meu lado. Acho em falta, sempre, o rito que dea significaçom, senso. Sacralizaçom. Todo o que perdim.

OS JUDEUS EUROPEUS forom a amalgama da cultura europeia: já nom os hai, já nom a hai.(E que foi de toda aquela cultura alemá sem eles?)

MAS OS PALESTINIANOS ESTÁM A SANGRAR, aí e agora.

NO AEROPORTO, NA LOJA DA CASA “WARNER” a empregada pergunta o meu destino. Nom quero dizer-lho, eles nom tenhem porque saber isso e a mesma pergunta já é umha impertinência: simplesmente consigo que a moça se sinta envergonhada e nom saiba como fazer-me o recibo da compra. Finalmente, digo-lho, vou a Santiago. Sempre vou a Santiago.

A IMPRENSA LIBRE É A QUE NOS PERMITE SER CIDADÁNS, QUANDO NOM É LIBRE TAMBÉM É A QUE NOS CONDENA A SER SÚBDITOS. A imprensa de Espanha, mui concretamente a de Madrid, algum dia terá de fazer-se umha autocrítica por ter ajudado a que a democracia espanhola chegasse a esta crise que vive. O fracasso da imprensa e da liberdade de expressom é o fracasso da democracia.

ESQUECEMOS QUE A LIBERDADE NUNCA SE TEM, SEMPRE SE LOITA POR ELA. Agora reaparece o nacionalismo espanhol franquista, mas esta vez nom com a ponta do fusil do Exército senom por meios parlamentares, e ficamos surpreendidos, como é que volta o passado, se já passou? Esquecemos lembrar sempre, e ensinar-lho aos nossos filhos, que hai que ser sempre antifascistas, que hai que ser sempre antifranquistas.

CABROMS, PUTAS E MARICALHOS: som os nomes das vítimas. Aprendemos a agredir, alcunhar, ofender com esses nomes definitivos, derrotas e ofensas absolutas. Som os nomes dos burlados, das mulheres forçadas nos bordeis, dos homens forçados nos cárceres, das pessoas com a identidade destruída. Os últimos dos últimos. Agora tomamos consciência dessa perversom, nom podemos seguir identificando o que é odioso com os perdedores, pois os perdedores nom som odiosos. Só é odiosa a opressom do débil. E já nom temos nomes para alcunhar para ofender, que lhe podemos chamar aos odiosos? Os mais eficazes logros expressivos dam-se no maldizer e a nossa consciência deixou-nos sem palavras para acalonhar.

INTERNET É OUTRO ENREDO PARA FUGIR DO SILÊNCIO, PARA EVITAR ESTAR EM PRIVACIDADE COM NÓS PRÓPRIOS. Estou aqui, estás aí e escapamos de nós. A nossa vida é um fluir entre bandas sonoras, ruídos e imagens, sempre a escapar da vida.

HOSPITAIS DA DOR. Hospitais, cavernas cheas de dor, precisamente ali a gente e máis solidaria, ums achegan-se aos outros e valen-se e contan-se as vidas, doendo-se uns das penas dos outros.
Ha amizades nacidas de convalecencias tam intimas como as dos rapaces. Cando logo aqueles amigos tornan a vida diaria procuran esquecer a vergonha de ter volto a ser rapaces amigabeis naquel estadio de debilidade.
A dor achega as pessoas, nom ha solidaridade se primeiro nom houbo padecemento.

O PAN FIXOSE BRANCO, E O AZUCRE, O ACEITE FOI REFINADO E AGORA E MAIS CRARO…, fomos-lhe tirando o sabor a todo. Ja nom aturamos o sabor da vida.

E MOI COMUM HOJE NA CULTURA ESPANHOLA INVOCAR O NOME DO VALLE-INCLAN e celebrar os seus retratos literarios tan terribeis, lucidos e despiadados da sociedade e da cultura da súa epoca.
Mais no seu tempo foi visto como um rosmom extravagante que nada mais via os defectos.

HOJE RETRATAR A VIDA ESPANHOLA SEGUE A SER igual de incomodo, a umha testemunha incomoda ninguem lhe agradece cousa. Na Espanha de hoje tampouco son queridos os intelectuais libres.

AS IDEOLOGIAS seguramente som precisas: o propio humanismo democratico e umha ideologia. Mais a ideologia e um “aliem”, um pole invisibel que entra en nos e nos posue.
Eses mozos que matan gente cumha bomba, que disparam na caluga de gente desarmada…, aí no País Vasco, tam perto. A ideologia e um monstro que os posue.

A GRANDE UTOPIA: que nom houbese falta de Amnistia Internacional

Botelha janeiro 2002-01-15

BOTELHA JANEIRO-2002

BOTELHA JANEIRO 2002-01-15

EMINEM nom é rap, é violência e ternura.

O ENTERRAMENTO DO CAMILO JOSÉ CELA NA PANTALHA DO TELEVISOR, retransmitido
em directo e comentado com voz solene, duas horas de funeral, gente a ir e
vir, curas, autoridades do governo, aplausos. Isso nom é ser soterrado, isso
é entrar no Património Nacional. Enterramento cortesao para um escritor
grande, mas cortesao. Poucas cousas mais tristes que toda essa solenidade
obscena.
É o momento de pensar no nosso e de dizer no vento e de escrever nesta
superfície inexistente que quero ser soterrado sem que se inteirem as
autoridades e os meios de comunicaçom.

E, NO ENTANTO, UMHA MIGA DE RAZOM TEM O CJC, ainda que um queira a morte
pessoal e nom a cenificaçom da pompa do personagem, e logo nom é mais
coerente essa morte social e espectacular? Ao cabo o escritor vive no meio da vida
pública do seu tempo. Oferece aos contemporáneos o espectáculo de
atravessá-la. Por que logo ocultar-lhe o fim dessa viagem pública?

CANTA A NELLY FURTADO, E CANTA TAM FRAGIL, NINFA E BEM, “Desculpa -me se eu te
ofendi / Desculpa- me se eu te esqueci/Desculpa -me se eu te deixei / E
desculpa-me por me sentir bem com tua dor / Sabes que eu te adoro / Mas
sei que a tua estrela é maior / Do que a minha, do que a minha / E por
isso / Eu tenho medo desse amor (os dias passo pensando em ti).
A Nelly é canadiana, mas também sabe cantar na língua de seus pais.
E eu, que a escuito, tenho que ouvir onde vivo, na Galiza, que o seu
idioma é outra cousa diferente do nosso. Tenho que ouvir que o galego é
diferente do que canta Nelly. Tenho que ouvir, e chorar ou rir, dos que
tenhem soidades das alfándegas, dos últimos polícias do espanholismo que
negam essa viçosa evidência que canta polo mundo em milhons de gargantas.

A NELLY, A DIDO, A ALICE KEYS, Uauhhh. O poder da voz turvadora das
mulheres novas. E quem dixo que nom houbo ou hai sereias no mar e na
terra? Os mesmos que dim que nom hai meigas.
Ai, o canto das sereias.

AS MULHERES SOM AS VERDADEIRAS DONAS DO MUNDO. E por isso, justo por isso, é
polo que os homes lho temos arrebatado e as encerramos.

O ROMANCISTA CONFESSA-SE: Já nom dou lido romances. Hai anos que nom dou.
O romance pide-nos a mente atenta e mansa. E nom sei quando foi, se os
anos ou o ofício de escritor, que se me pujo dispersa e fera. Nom podo
ler romances. Será o preço de escrevê-los? Provavelmente.

ARIEL SHARON: Sabra e Chatila.

ÀS VEZES UM ESTÁ FALTO DE ALGUMHA COUSA, algo assi como falto
de contemplaçom. E entom, já que um nom tem igreja nem paróquia, entra
nalgum museu.

A MINHA CANÇOM FAVORITA, A MINHA CANÇOM FAVORITA Já levo dito tantas. Hoje é
“My favourite things” (de R.Rodgers-O.Hammerstein II), do musical “Sorrisos
e lágrimas” interpretada por John Coltrane. Como é que
Coltrane consegue quase quase o que procura interpretando um tema que
semelha trivial.
Nom o é, nom o é.

AI, ESSA PROCURA DO INFINITO, DA TRANSCENDÊNCIA NOS GRANDES MÚSICOS (eles nom estam coutados polas palabras, a linguagem e os seus limites como os escritores) , também
nos de jazz. “Os perseguidores”: Parker, Coltrane, Mingus, B. Holliday,
Davis.

LEVO DENTRO UN JUDEU E MAIS UM CELTA, e andam sempre a rifar e a loitarem.

W.H. AUDEN: Outra razom para desdenhar o Nobel. Era homosexual “de mais”?
[No mar outra vez dende o 24.11.2006]

Botelha ao mar.(Novembro-2001)

UM ENREDA CON ESTAS COUSAS DA INTERNET E PARECE-LHE QUE E MODERNO, mas veu um problema tecnico e nom soubem arranjar cousa, nom puiden actualizar esta pagina. A fin seguimos a ser esa gente torpe e pouco tecnologica.

O ARTISTA PRECISA do pensamento do estoico, da sensualidade do libertino e do coraçom do salvagem.

“EU ESCULPIREI A MINHA PRÓPRIA ESCULTURA”, cousas do André Malraux. Essa é a tentaçom do escritor: dedicar as energias a transformar-se ele próprio em estátua em vez de alimentar a obra literária. O melhor modo de chegar a ser un monte de merda, umha estátua de merda.

NO SEXO nom gozamos nós. Som as fantasmas sexuais que nos possuem quem gozam. Nós somentes somos a cámara escura que os envolve, o lugar cálido e húmido onde ocorre todo.

LER É UM RITO PRIVADO. É um ritual em vários sensos. No senso habitual da palavra, um costume estabelecido, umha prática reiterada. Também no senso de ritual mágico. Existe um círculo mágico de transubstanciaçom: a vida alimenta primeiro ao autor e a palavra literária e logo os nossos olhos lem na palabra escrita e erguem perante nós um mundo espectral.
Também ler é um ritual no senso religioso, pois a literatura trata – mais ou menos vanamente- da existência, da vida e morte, do mundo. E ler literatura nom é outra cousa senom ler nos evangelhos da fé na vida.

UMHA MULHER NOVA queixa-se a umha amiga, “ai, chica, digo-che que estou hipermorta”. Nin a vida nin a morte tenhen hoje sustancia bastante, cómpre remarcar.

A MOCIDADE é a embriaguez de tempo, traga tempo como un Gargantúa con riles capaces a todo. Na mocidade somos gigantes. Mais tarde imos sendo mais e mais enanos. E avarentos.

COM A IDADE, a cada vez mais as cousas, os lugares, encolhem para um, a cámbio aumenta a memória que temos delas. Aumenta a sua sombra. Chegará um momento em que só vejamos as suas sombras.

ESTOU A MIJAR QUANDO SOA O TELEFONE MÓVEL (TELEMÓVEL?). Contesto a chamada e mantenho umha conversa com umha mulher de umha empresa que me pede umha factura para poder pagar-me um trabalho. Mentres acabo de mijar, guardo-a e cerro a cremalheira. Acabamos a conversa, despedímonos e lavo as maos.A tecnologia excusa-nos da cortesia.

SER GALEGO E BRASILEIRO. Intento transcrever no meu ordenador um texto galego medieval, a opçom de teclado que tenho seleccionada nom serve. Para poder escrevê-lo busco a opçom de teclado “brasileiro”, e esse sim serve.
O galego medieval, a nossa memória lingüística, nom pertence ao galego
castelhanizado instituído por esta autonomia nas maos do posfranquismo. Para esse galego serve a opçom de teclado “español”. A nosa literatura medieval, a memória historica, isso queda-lhes para os
portugueses, brasileiros.

[No mar outra vez dende o 09.11.2006]

Botelha ao mar 9 (Junho-2001)

(Feito já?) OS REGENERACIONISTAS temos soidades do que nunca existiu.

O ESTILO INFORMAL, esse rapaz que sentou no espaldar do banco público com
os pés
pousados no próprio banco pratica o estilo informal. Ou seja, desprezar os
demais que van sentar logo alí a que el marche.

ANÚNCIO DE TABACO. Umha mulher que lhe pom a mao pola cintura a un moço,
umha mulher que beija outra… Mulheres independentes e com iniciativa, as
empresas expendedoras do cancro vam por vós. Mais claro, água.

A FALAR COM UM AMIGO BASCO sobre umha pessoa especialmente irritante, “É
que é para matá-lo!”. “Nom, nom digas isso”, replica o basco.
E entom um compreende o horror dessa expressom tam comum, já que em Euskadi
essas cousas se fam. Hai quem di “É para matá-lo”, e vam e matam-no.
Os assassinatos já consumados e os axejantes, o terror, tem infectado a vida e
a linguagem dos bascos.

EUSKADI, PAIS ESSE DE PESSOAS OBCECADAS. Penso numha persoa inteligente mas
tam atingida desse rapto de obcecaçom que chegou a dizer que ele já nunca
falaria euskera, pois havia quem matava no nome do euskera.
Nom figerom umha guerra civil no nome de Espanha? Nom fusilavam a nossa
gente ao berro de “Arriba Espanha”? Nom poderemos falar espanhol por isso?
Algum dia os ánimos irám-se serenando ali.

SOBRE O “QUIXOTE”. Parte da força do livro vem-lhe da soltura de estar dentro
dumha tradiçom mui codificada, a do romance de cavalarias. Também
Shakespeare escreveu dentro dumha tradiçom teatral codificada e com
tradiçom. Nom hai grande obra senom é dentro dumha tradiçom assentada (ainda
que parodie, trasgrida, liquide, essa tradiçom).

UM POLÍCIA MUNICIPAL. Um polícia municipal de serviço cum meninho em braços,
a mai levou o filho para que visse o pai que estava a trabalhar. Esse é o país
de que um gostaria. Polícias com meninhos nos braços a fazerem-lhe festas.

“CALMA, DIGNIDADE, DESPREZO DA INVEJA…”, escrevia Le Corbusier no seu
diário. Nom hai cousa melhor para qualquer que pretenda criar umha obra do
tipo que seja. Mas quando Le Corbusier escrevia essa prescriçom para si
próprio… nom seria antes que estaba adoecido polas invejas e os
desprezos? Que dificil nom é a indiferença.

NUM JORNAL, fotos de pessoas retratadas na sua casa, mostrando os interiores,
os jardins os que os tenhen…Se mostras os lugares íntimos já deixam de
sê-lo, som públicos.

AS BOMBAS PALESTINIANAS, terroristas suicidas, os corpos rotos, seccionados,
rebentados…A cena ensangrentada que deixam essas bombas som umha metáfora
terrível do corpo e da alma palestiniana.

O BAR ESTA CHEIO DE RUÍDO. Difícil contabilizar tantos ruídos diversos, hai
que falar a vozes para seres ouvido, mas o rádio está ligado também com o seu
chunda-chunda. Por que lhes é preciso esse ruído concreto aos do bar?

A MÚSICA DAS PELÍCULAS “DE MEDO”, do medo sobrenatural, Elliot
Goldenthal e tantos outros, é formosa: tanta corda tangida até
parecer lôbregas marés musicais é inspirada pola música religiosa. Temor
e piedade. (Ou “Temor e tremor”, como escreveu o Kierkegard).

OS OSSOS DO MEU AVÔ. O meu avô era magro, puro osso e pelelhos…da fame e dos
trabalhos. Hoje isso seria olhado como formoso. E a gente vai aos ginásios
para
procurar esse tipo de beleza.
Quem lhes dera a concentraçom de energia daquela gente que afronta a vida
em contra dela.

QUANDO O SAGRADO ENCARNA EM “DEUS”, personaliza, a vida humana volve-se um
juízo constante. Nom aos humanos, pois o divino é imperturbável, mas a
Deus, pois os humanos julgam-no a ele polo que ocorre e polo que nom ocorre;
Julgam-no pola vida.

CONTAMINAÇOM. Na entrada de um prédio: “Nom se admite publicidade”. Querem
dizer que nom lhes metam papéis publicitários nas suas caixas do correio.
Mas viver na
cidade e nom receber mensagens publicitárias…, tam imposível como nom
inalar monóxido de carbono.

LITURGIA. Tanto tem a devoçom ou nom, a complexidade doutrinal, as tradiçons
litúrgicas, de onde venha esse canto que entoam os cregos da catedral. Para
esta gente que fai a visita turística somente é folclore típico dum sítio
como este.

AS LIÇONS DOS MENINHOS. Todos os meninhos conhecem o mal, a morte desde que nacem. Todos
se assustam quando alguém se achega a eles com má cara. O conhecimento do dano
chega connosco ao mundo.

O OPUS DEI: Nom som cristaos. Con certeza som da Igreja Romana, mas
nom som cristaos, pois falta-lhes o mais característico da mensagem de
Cristo: a caridade. E carecem do específico da tradiçom religiosa e
antropológica judeo-cristá: a culpa.

AS CHAVES DOS LUGARES. Às veces um quereria ser um estranho a todo lugar.
Mas também é formoso ser dum lugar. Eu som dum país e, ainda que tenho umha
ligaçom intelectual e afectiva forte, realmente pertenço intimamente a uns
poucos lugares, especialmente à minha cidade.Cada vizinho dumha cidade tem
umha particular chave íntima da sua cidade. Eu tenho umha chave de Compostela.

A ÚNICA VERDADE DO ARTISTA é a sua obra. Ou seja, a sua vida verdadeira.

TODA A ARTE VERDADEIRA é no fundo religiosa. E o artista que caminha pola
via da religiom explícita, dumha confissom religiosa, fai o mesmo que
tantos espíritos fortes que se submetem ao masoquismo: buscam humilhar-se
para obter umha paz dentro e receber umha
bençom.

PARELHAS. Na rua um home e umha mulher idosos e gastos, colhidos da mao e
sentados na entrada dum prédio pedem caridade em silêncio, umha caixa de
cartom diante
deles no chao. Ao seu lado um cartazinho colado num muro com umha foto dumha
parelha de michinhos:”Busca-se lar para dous gatinhos”.

UM PAI QUE ENTRA PARA DEIXAR O SEU FILHO NA ESCOLA e vê aqueles corredores
altos e frios, e ainda que agora os muros tenhen cartazes de cores nom se
deixa enganar e pensa: “Nom che queria eu voltar aqui, nom”. Mas o seu
filho vai ficar ali quando ele partir.

O QUE VÊ UM CEGO diante dum espelho.

ESSA MOÇA tam linda que passou compujo umha pose tirada dum anúncio de TV.
Antes a beleza ganhada obtinha-se por imitaçom de belezas vivas.Agora é um
realizador de publicidade quem desencadeia essa multiplicaçom por espelhos. A
imagem da imagem da imagem dum anúncio da TV.
Isso si, era bonita a rapariga. A vida reparte as suas bençons de modos que
nom reconhecemos nem entendemos. É assim.

[No mar outra vez dende o 16.09.2006]

Botelha 7 (Abril 2001)

GARRAFA AO MAR 7

MOBY, O PELADO ARTISTA INGLÊS, em cada disco um panfleto a favor do
vegetarianismo, umha crítica da hipocrisia da moral conservadora e, ao tempo,
umha proposta para viver com valores. E que estupendas peças de música as
deste romántico de pistas de baile.
O Reino Unido, apesar das pragas, epidemias, de ser o sacristao do
imperialismo dos EUA, da sua desorientaçom histórica e o seu afundimento
moral, sempre nos surpreenderá com as suas individualidades. A liçom dos
británicos é a da singularidade. E aí estám os seus artistas, filhos da
singularidade.
Um desconfia da opiniom dos artistas, a nossa natureza é a irracionalidade,
mas oxalá os artistas comprometidos com o que ocorre ao seu redor nom fossem
excepçom. Dúzias, centos, milhares de artistas comprometidos na denúncia da
injustiça e no apoio às pequenas utopias rebeldes que florescem.

O PASSADO VAI-SE OCULTANDO até que se nos perde de vista. Nom sabemos que
se passa com ele nessa parte oculta, vai-se ele ou vamo-nos nós?, esvai-se
ou permanece?
Permanece alí e mais logo habemo-lo de ir recuperando, como o fío do novelo.

OS HOSPITAIS PERMITEM-NOS VER OUTRA CARA DOS VARONS, DO MASCULINO. Homes
cuidando atentos de familiares doentes, homes com meninhos tam pequenos em
braços. É curioso que este lado amável é mais abondoso nos homes de aldeia.
Quantas cousas nom se perdem no tránsito da aldeia ao bairro.

OS ESCRITORES GALEGOS SOMOS OS ÚLTIMOS ESCRITORES ANTIFASCISTAS DA
PENÍNSULA. À força, vemo-nos obrigados. E depois de todo, nom nos
queixemos, todos deveríamos continuar a ser antifascistas, antifranquistas
sempre. Ou antifranquistas ou culpabeis e cúmplices.

DECATO-ME DE QUE ESTAS NOTAS TENHEM MUITO A VER com os diários do José
Torga, com as notas desassossegadoras do Fernando Pessoa, som também um
pouco portuguesas. Como nom vai ser reintegracionista um galego se, ademais
de ter dignidade, viaja, pensa ou lê? (Tambem un pouco catalanas, pois
está a sombra do Josep Pla)

CHAMAM-ME UNS ARTISTAS, QUEREM ADAPTAR A TEATRO OUTROS TEXTOS MEUS. A
insistência de gente do teatro e do cinema em adaptar aos seus espaços as
palavras que eu escrevim para serem lidas fam-me duvidar, se calhar nom som
exactamente “um escritor”. Se calhar som outra cousa, nom sei qual. Ai,
quem tivesse umha identidade clara, definida, limitada, e nom este andar
escarranchado e esticado para toda a parte. Consola-me a ideia de que a
vida é assim aberta e inapreensível, por isso é tam cansado viver. E tam
formoso. Quando um cansa, quigera ser severo escritor ou catedrático,
académico ou cousa así.

O PARIS-DAKKAR: Cago na mai que os pariu a todos esses! Nom avonda com
manter colonizado um continente, a mao oculta da França e dos interesses das
petroleiras atrás das matanças dos hutus, nom avonda com o que se lhe fai à
África por diante e por detrás, que ainda por riba há que passar-lhe por riba
a toda hóstia com chuleria. Por riba de puta, pagar a cama.

NA PORTA DUM MacDONALD´S MADRILENHO um home com um grande cartaz pendurado
do pescoço a anunciar tatuagens. Houvo um tempo em que umha tatuagem era
parte dumha viagem de iniciaçom à vida, os homes marchavam longe aos
perigos para voltar mudados: o serviço militar, o cárcere, viagens em
barco. Hoje tatuar-se é como comer umha hamburguesa.

PRECONCEITOS CONTRA O CINEMA. Onde eu moro é freqüente que, para fazer a
menos umha obra literária, digam dela que é mui influenciada polo cinema. E
eu que por muito que veja películas más nom consigo que o cinema deixe de
fascinar-me e de comover-me. Quem fala mal do cinema nom pode ter muito
coraçom. E, se nom, provem a ver “Billy Elliot” e digam logo.

FIGURA FÁCIL: Um livro é como un barco de vela (dos de Conrad, se puder ser)
e os leitores som como a brisa favorável que o leva polo mar. É umha figura
fácil, nom é?

LIBERDADE DE EXPRESSOM! Quem nom foi arrestado polas suas opinions, quem
nom viu rejeitados artigos para a imprensa devido às ideias que contenhem,
quem nom padeceu represália por expressar as suas ideias, quem nom foi
estigmatizado desde o poder por pensar como pensa, nom sabe o que é a
liberdade de imprensa nem a liberdade de expressom.

P.D.JAMES, RUTH RENDELL, as mulheres escritoras de romance negro som as
legítimas herdeiras do Dickens que conta da infáncia maltratada, do
embrutecimento das classes trabalhadoras. Um brinde por elas.

INCONVENIÊNCIAS DE SER ESCRITOR PROFISSIONAL: Andamos a fazer de figuras, a
explicar o que escrevemos, justo o que nunca deveríamos fazer. Tantas
entrevistas dizendo o que deve ser indizível, dizendo o que está escrito
para ser lido.

O HERÓI REVOLUCIONÁRIO, CHE, MARCOS, O MESMO QUE O ESCRITOR, DEVE SER
GUAPO/A neste tempo em que a notícia nom a trai um viajeiro que vem de
longe, senom que nos é injectada nos olhos pola TV.

NAS ÚLTIMAS HORAS DA NOITE, quando ainda nom veu o alvor, nom temos forças
já para ter conta da máscara. E somos nós, cansos, vencidos e desejando o
acovilho dumha cama uterina e total e para sempre.

AS OBRAS DO ESCULTOR RICHARD LONG sempre convocam a soidade dalgumha velha
religiom.

LEIO NUM LIVRO, “O CÁNONE OCIDENTAL” do senhor H. Bloom, enquanto escuito a
música do senhor Bony. De certa maneira, cai-me bem desde há anos Mr.
H.Bloom, gosto da sua insolência criativa, ainda que me parece que já
chegou ao
autoritarismo, à petuláncia e ao aborrecimento. E, sobretodo, o ritmo
furioso, a criaçom e expressom de estados de ánimo da música de Mr. Bony fai-me ver a
cor da morte num livro tam pouco humilde e que quer ser tam importante e,
digo para mim, quanta merda!. E cerro-o, e sei que já nom o hei volver a
abrir.

SOM OS VÍCIOS OS QUE MOVEM O MUNDO: a ambiçom, a cobiça, a luxúria, o
orgulho. Alguém mui virtuoso é alguém um pouco morto.
E, no entanto, o
freio da virtude é o que impede que a vida seja só devoraçom.

UM CONGRESSO INTERNACIONAL DE ALMAS MELANCÓLICAS aprovou as suas
comunicaçons: “A vida escorre-se-nos entre os dedos e nom nos atrevemos a
cerrar a mao”,”Temos medo”, “Que lindo é viver, mas, e a morte?”
Clausurou-se o congresso com os congressistas a bailar a dança da Morte e a
Donzela.

HÁ MUITAS RAZONS PARA FAZER CAMPANHA CONTRA A CANDIDATURA DE FRAGA IRIBARNE
A PRESIDENTE DA GALIZA, avonda com desejar-lhe à Galiza que tenha umha vida
digna, ou simplesmente que respire livre do nosso passado de crime. Estou
certo de que toda a gente de por Espanha adiante que se preocupa da falta
de liberdades no País Basco também se há mobilizar para que aqui também
tenhamos umha democracia verdadeira. Nom si? Um espera de todo o coraçom
que acudam aqui solidariamente a fazer campanha por um governo progressista
que termine com o franquismo que aqui ainda nos envolve tanto. A democracia
espanhola tem zonas de sombra, a Galiza é umha delas.

Botelha ao mar 5 (Decembro do 2000)

EN VIANA DO CASTELO. Esta-se a anovar Viana, todo paresce agradavel, coidado. E neste anovar-se vemos mesmo ante os nosos olhos como morren sen loita as velhas tendas familiares e a substituçom por franquicias internacionais: tamem aquí os mesmos nomes, as mesmas marcas. En todas partes esvaese a memoria das nosas vidas, o argumento da nosa identidade e so fica um mesmo mercado.

NUMHA “FEIRA DO LIBRO”: Um libro meu numha caseta, agachadinho, case oculto polos outros. Asoma o instinto infantil, primario, verdadeiro, de colocalo melhor para que alguem o veja. (Os nosos libros tan soinhos polo mundo. E nos, que pouquinha cousa somos.)

DE VISITA POR PORTUGAL COMPRENDE UM que na Galiza existe umha grande tension; e sen os mecanismos da civilidade e a urbanidade que tenhen aquí para canalizar as suas tensions.

PERDA DE CONTEXTO E IRREALIDADE. Estou nun chamado “restaurante italiano” fora da minha cidade. E de subito non sei en cual idioma lhe tenho de falar ao mozo…Fago o esforzo e recapacito, en cual lugar estou. Estiven antes en lugares asi en tantas cidades dispersas…

O ALCOHOL, A TV E O FUTBOL, esas drogas invisibeis e tan embrutecedoras…

TODOS QUEREMOS PARECER ALGO, e cada vez somos menos alguem.

E dificil aceptarse e conformarse. E dificil a rebeliom contra a escravitude do desejo. O desejo e o nervio da vida e tambem o chicote que nos ata.

“CORPO HUMILHADO, GRORIFICADO”. (Do “Oficio de Defuntos”)

¡AI VEN O LOBO!. Nom e certo que o pastor que persegue ao lobo queira salvar a ovelha: namais a quere comer el.

Quem se saiba ovelha, todos somos, saiba tamen que todos a queren comer. Desconfiemos dos pastores.

UN TELEVISOR ACENDIDO: Nun cuarto as escuras luces fantasmais. (¿Venhen hoje de ai as nosas fantasmas?)

MENINHOS MAL CRIADOS, TIRANICOS que cada dia abundan mais. Paradogicamente estes meninhos que tenhen de todo, substraidos ao trabalho e a necesidade, que non conhecen o “nom”…, estes froitos granados da civilizacion…: “estan a monte”.

O TALENTO ARTISTICO: Certas capacidades expresivas, linguisticas, combinadas con certos desarregros neurologicos…e mais umha doenza do ego ferido.

SER LETRISTA DE “MASSIVE ATACK”…

¿QUEM, QUE, LLE DICTOU A BACH a música do Mundo? (Cómo non había ter Fe no Senhor aquel senhor.)

ESE HOME SABESE UM NINGUEM, pequeno, feo, cativo e indefenso. Leva pola correa un cadelinho boxer, un animal de cara fea mais que leva dentro traza de elegancia e luxo. E apreciase que o seu dono contagiase da fermosura do cadelinho poderoso e así sábese alguem: o dono daquel animaliño.

NOM SEI SE E COUSA REAL OU IMAXINADA: tenho a impresión de que a minha letra se vai degradando. O medo á descomposición e ao colapso logo.

NOM SEI DAS MULHERES, pero os homes mejando…Coidado que vaia para o sitio, pinga, sacúdea…Vaia parvada andar despois moi esticado e fuciñudo, tan importantes. Como se non suásemos, e todo o demais.

QUEN E ORGULHOSO DE MAIS…, gusta de loitar cun brazo atado.

ESTOU NA PARAGE DO BUS con gente trabalhadora e ruda. Nesta situación de agardar polo bus todos somos case companheiros por un igual. Tirei do bolso este caderno e esta estilografica e ja me olhan con distancia e desconfianza, nom som un deles.

UN BUCEIRO PARA UN DRAGON.

UMHA MULHER METE A UN MENINHO NUMHA GARDERIA que eu sei que é nefasta. A nai fai o que pode mais o neno non vai contento.

Os meninhos de hoje han ter dereito a todo, non sendo a ser criados envoltos no carinho. A iso non.

CANTASE CONTRA O SILENCIO case sempre.

PARTE DO FASCINIO DO NIETZSCHE está en relación coa súa loucura. A tolemia alúmao e tambem é o carimbo do carácter trágico do seu conocer.

DE NOVOS SOMOS OS MELHORES LECTORES. Non é só que o adolescente viva aberto de peito e en carne viva.

Tambem é que aínda non se fartou da lectura; é precisa a escaseza, a pobreza, a penumbra, para celebrar a chegada da iluminación.
Os meus olhos están cegos para as mensajes escritas. E a minha alma está embrutecida de mensajes.

PROCESION ESPANHOLA NA SEMANA SANTA: Tambores militares atronando, a Igrexa Católica espanhola celebra o seu poder e o seu triunfo. Aínda que cargan images da Paixom do Nazareno, o sacrifico da victima inocente, que longe nom están del…

A GALIZA BAIJO A SOMBRA DE FRANCO e do seu ministro Fraga. Esta Galiza atada polo pescozo ao seu pasado que afoga aos seus filhos, cimeterio de esperanzas e xerazoms novas. Grande picadora de carne.
A idea do exilio á fin acabou por emerger.

OS ARTISTAS SOM COMO SACERDOTES DUMHA VELHA RELIGIOM QUE JA NINGUEM LEMBRA e da que nin eles mesmos lembram os misterios. Andan confusos a procurar lembrar.