Botelha ao mar 4

MUSICA QUE ACOMPANHA: Therapy?, Messiaen, Shostakovich, J.S.Bach, Pergolessy, Nina Simone, Human League, Nirvrana, Blind Faith, Massive Attack, Britten: A música que cadra en acompanhar-me,os CDs aí diante. Companhia esquizoide.

O gosto partido é sinal dunha alma desquiciada. O gosto partido, o estigma da contemporaneidade.

E TAMBÉM VIOLETA PARRA. Despois de anos a procurar un disco dela, hai tantos anos que está fora de moda, afinal dei com umha antologia. Din que se nos oferece de todo, o que queiramos, mais nom é certo, as tendas de discos estém cheias de música mamona e cursi e resulta quase impossível dar com um disco de Violeta Parra. Ai, Violeta, morta e bela, antifascista e operaria, cada cançom tua volta a escoitar é umha derrota do Pinochet. A ela Pinochet nom lhe pudo cortar as maos, como fijo a Victor Jara antes de matá-lo, pois ela morreu antes. Abençoada Violeta, cada cançom tua é umha derrota dos canalhas.

O PINOCHET E O FRAGA IRIBARNE, QUE ACABA DE CELEBRAR E RIR DOS JUIZES QUE O CONDENAM, DAS VITIMAS. As vitimas as pessoas máis generosas do Chile que el mandou matar, desaparecer, torturar.

DENTRO DA PALABRA TORTURA CABE O INFERNO: descargas nos Genitais a homes e mulheres, mulheres forçadas por feros cans adestrados para isso, meninhas forçadas diante dos pais A palabra tortura È a morte do mundo, a nada obscura e fria. E existe.

UM MINISTRO DE FRANCO, adalide dos generais argentinos que roubavam os meninhos, que segue a reivindicar Franco frio e sen alma, Franco o da”Guardia Mora” assassina e da Guerra Civil despiadada e o franquismo de terror e miséria, que nega o Holocausto judeu, fazer burla desses seis millons de pessoas que figeron desaparecer… Um home assi que tivo tempo abondo para fazer umha autocrÌtica, nem sequer un gesto de desapego de todo esse fascismo, governa na Galiza Umha vergonha para Espanha e para Europa. Esse home está a facer que a palavra galego seja obscena.

FRAGA terá autoridade política, foi eleido com os votos, e foi aceitado por quase todos como Presidente da “Xunta”, mais nom tem autoridade moral.E arrasta o nome da Galiza e fai-nos responsáveis da sua imoralidade. Sequera non ser cúmplices. Que dimita e deixe respirar a Galiza.

O MILAGRE DA FiÇOM: Umha mulher lê ao meu carom, no autocarro ateigado de gente, un romance; vai absorta na leitura. Eis o milagre da novela.

O TAXISTA QUE ME LEVA È um homem maduro, o escasso cabelo branco, as rugas na cara gasta de olhos afundidos. Leva posta a música dos Beatles, os Doors. Un diante e o outro detrás os dous cantarujamos as cançons e olho o seu rosto no espelho retrovisor e assumo que esse é também o meu rosto.

RAPAZ, NOM TE QUER. Umha moça fala cum moço sem tirar os auriculares dos ouvidos para nom deixar de escuitar música.

UM POBRE PASSA pola rua fuchicando na sua agenda electrónica: até ser pobre é hoje complicado.

BUSCO POLO CENTRO DA MINHA CIDADE, polo que fôrom os bairros que me criaron,umha sapataria de calçado modesto, comim e pratico para comprar umhas sapatilhas de trabalho, as velhas “Chirucas”, mais todas desaparecerom. Hoje son joalharías, tendas de lembranças para o turista, tendas de telefonía móvel. Para comprar as cousas práticas tenho de ir aos bairros do arredor,
fora do centro. O modo em que vai indo aqui a vida bota-me fora do centro, fai-me excêntrico.

NA ESPANHA ACTUAL os que fomos e somos democratas estamos custionados polos antigos franquistas e alguns velhos democratas, agora som todos de umha nova ideologia ,”o constitucionalismo”, e suspeitan de nós por querer continuar a ser democratas.

Tenhem razom, somos culpáveis por esse delito de opiniom.

Respeitamos o parecer dos outros mais também mantemos o direito a discrepar deles, somos discrepantes. E nom fazemos ideologia nem da constituiçom, nem do código penal, nem da lei de bens catastrais As leis só som leis e a ideologÌa dos demócratas é o humanismo. A dos outros nom.

A CHAMADA DOS MORTOS. O velho vê que toda a sua gente foi morrendo e ja el é un estrageiro no lugar no qual sempre viveu, cada vez fai-se máis forte e gravitatorio o chamado dos mortos que o reclamam.

UN RAPAZ COME EMPANADA E ACOMPANHA-SE BEBENDO COCA-COLA, cona que o botou.

Que unha marca susbstitua na dieta a água, e tambèm a cerveja, o vinho, nom só è um desastre da saùde pùblica tambèm è a perda de umha criaçom da nossa civilizaçom, experiência e sabedoria destilada durante milhares de anos. Mais sobretodo demonstra que se nom reagimos construiremos un futuro sobre os escombros da nossa própria civilizaÁom.

Rapaz, nom bebas com a comida isso que os “media” che mandam beber.

Seica nom tes pai ou nai? Ou fôrom eles quen te educárom assi?

AI, A ARTE … TAN COMPLEXA. OU TAN SIMPLES, como quando a Violeta Parra canta “Mire como sonrÌe el Presidente, cuando le hace promesas al inocente”, na sua mesma voz inocente.

ROBALIZA. Ese peixe chama-se assi quando È pescado polo marinheiro, cando cha oferecen nos restaurantes ja se pasou a chamar “una lubinita fresquita”. Os peixes perden de contado a frescura.

OPA AMISTOSA. A Galiza precisa de umha OPA amistosa e urgente de Portugal; mais nom cairá esa breva.

¿ E POR QUE … que nos bares situam o telefone pùblico tan perto dos wáteres?(Que sempre estàm no fundo à direita)

NUM TELEFILME “DE MEDO”, entra o protagonista num apartamento suspeito, hai várias estátuas. As estátuas som inevitavelmente relacionadas co sinistro e a morte.

UMHA MULHER RELATA A SUA DESGRAÇA NA TV, como morreu o seu filho. A quem
lho conta? Por quê?

Botelha ao mar 2 (Maio-2000)

ANDAM COM O CENTENÁRIO DE BUÑUEL às voltas. Que ganhas de andar com os mortos a marealos. Um artista segue vivo em tanto que artista ainda que morresse se a sua obra segue a actuar sobre a gente, mas quando che fam estas pompas fúnebres centenárias unicamente querem foder-te e dissecar-te. E Buñuel segue vivo. O conto é que volto a ver um fotograma daquele “Cam andaluz” no que um homem corta limpamente com umha navalha de barbear o globo do olho a umha mulher.

Parece-me que entendo bem o jogo da provocaçom, da perturbaçom, e nom digo nada. Unicamente que, mais umha vez, é o homem o que viola, tortura, ofende, destrui o corpo da mulher.

Já sei, já sei, a arte é o terreno da liberdade, também quero isso para mim; também sei que eram outros tempos e nom havia esta nova consciência que por primeira vez na história da nossa espécie fai que aprendamos a ver o mundo com os olhos das mulheres. Nom julgo neste caso, nom julgo.

Mas hai pouco lim umha reportagem sobre as mulheres albanesas e kosovares sequestradas, compradas, violadas, torturadas e marcadas para ser prostituídas na Europa, nom deixo de interrogar-me sobre a masculinidade e quando vejo essa imagem vejo todo isso. Vejo mal? Se calhar.

POR CERTO, SOBRE OS CENTENÁRIOS E OUTRAS PERVERSONS: Os escritores galegos temos, como sonhou Andy Warholl para todo o mundo, o nosso ínterim de glória garantido. O dia das Letras Galegas de cada ano vai dedicado a bons e maus escritores por igual, mesmo vai dedicado a persoas que nom eram escritores apenas. Eu renuncio a ele, se se me permitir. A Glória do artista, a memória, é ganhada a pulso, se nom conseguim umha obra literária que mereça ser lida logo de que eu morresse, pois fracassei. E quero ter direito ao fracasso e ao esquecimento piedoso.

E já nom comento o aspecto que tem a celebraçom de adecentar o defunto para o mundo. Nem quero que o mundo saiba das minhas misérias, som minhas, o mais meu, nem quero que me embalsamem pulcramente para dizer que fum um santo (som un cabronazo do caralho). Um compreende perfeitamente o que foi o Dia das Letras para umha cultura assovalhada, mas espero que se compreendam também estas raçons persoais. Ao cabo, um algo terá de dizer sobre os seus funerais. Digo eu.

Assi pois, fica escrito, nom compito por esse presente mortuário, que nom haja Dia das Letras Galegas dedicado a mim.

E PERDO-ME TODAS AS HONRAS, pois já tenho assinado desde hai uns quatro anos um escrito no que afirmo que nunca entrarei em nengumha Academia das Letras e essas cousas. É preciso que os escritores de por aquí esqueçamos os sonhos burocraticos e comecemos a sonhar com outras cousas, coa gloria se calhar.

O VARREDOR PASSA A CANTAR; já quase ninguém canta. Talvez a de varredor seja a profissom ajeitada para ser feliz.

Shakespeare fijo que os filósofos fossem príncipes, talvez Buda fosse um varredor municipal.

UM GUIA TURÍSTICO A EXPLICAR OS MONUMENTOS NA PRAÇA DO OBRADOIRO em galego. Estranho-me todo. A explicaçom, os turistas som portugueses.

Tanto lhe custa a algumha gente aceitar esta evidência? Tanto lhes doe que preferem evitar que nos poidamos aproximar e entender? Eu nom os entendo a eles.

Ou se calhar sim que os entendo, nom querem umha naçom senom quatro putas deputaçons e províncias povoadas de “almas rendidas” (assim chamaba o Ortega aos galegos). E nom querem umha cultura senom umha culturinha.

Umha cultura está normalizada e vive no mundo, medindo-se com as outras culturas. Umha culturinha é um binquedo mui manejável e ali qualquer é o rei.
Merda para as culturinhas.

OS SALTOS: Ninguém cavila o bastante nos saltos, no que em espanhol se di tacons. Mas os saltos transformam a gente, sobretodo as mulheres. Um par de saltos provoca mudanças na identidade persoal. Umha mocinha ou umha mulher pequena pom um bom par de saltos e transforma-se numha mulher imponente, ou ela ve-se assim. O salto muda-lhe a figura ressaltando o que ela quere ressaltar, dá-lhe um andar torpe que semelha garboso e dá-lhe altura. Suponho que dá todo isto e compreendo a tentaçom de levar saltos. Hoje todos nos trabalhamos a identidade persoal a pulso. Viver está duro de caralho, claro que também tem as suas alegrias.

OS ACTORES. Aqui os estám, antes dum acto social, dumha representaçom, dumha gala, qualquer ocasiom da vida da profissom…, barulheiros e como meninos. Provavelmente é-lhes precisa essa como leveza, como puerilidade. A disponibilidade dos rapaces para o jogo para logo encarnar na cena o mais negro, o mais turbo ou o mais elevado; o mais elevado.

CADA DIA ESTAMOS MAIS VACIOS, baleiros de nós, de todo. E máis cheos de ruído. Cada dia é máis doado ser estrela mediática e máis difícil ser artista. Cada paso máis difícil estar cheo de un propio, cheo do mundo. Ou sequer ter unha pouca substancia.

Este é o tempo da xente leve, incolora, inodora e insípida. O meu puto tempo.

Botelha ao mar 3 (Julho-2000)

O CARALHO DO VAN MORRISON, nom hai disco em que nom tenha duas, três músicas que emocionam. Tam difícil emocionar. E ele fai-no desse jeito em que toca o lacrimal mais nom fai descompor o gesto. Elegáncia, chama-se. Claro que hai um passo além, que é a tragédia, quando o ríctus rompe no pranto. A elegáncia é umha elevaçom, a tragédia é o descenso que conduce à grande altura, à grandeza. Assi e todo, que faltos nom estamos da elegáncia nesta puta vida desportiva e vulgarmente banal.

A BELEZA NORTEAMERICANA. Havia tanto tempo que nom tinha nem tempo de ir ao cinema. E fum, vim essa “American beauty” (na Espanha já deixarom de traduzir os títulos dos filmes, nom é que a gente saiba moito mais inglês que hai uns anos, é o gosto por aparentar que se sabe). Nom estivo mal, mais nom pudem deixar de compará-la com aquele outro filme dum director chinês-americano, como é que se chama?, que na Espanha foi distribuída sob o título de “Tempestad de hielo”, que maravilha. O que este filme quijo dizer com pequenos truques e efectismos já o dixera aquele dum modo radical, terminante, terminal. O niilismo da sociedade norteamericana. Sei que vamos para isso, cara a um esvaziamento absoluto das nossas vidas, de nós. Teremos de todo e estaremos cheios do nada. A superabundáncia de significados conduz à desapariçom do sentido. O ter absolutamente de todo conduz ao Nada absoluto.

DANÇA DE DEFUNTOS. Umha gravaçom dumha actuaçom do Jimi Hendrix acompanhado de Jim Morrison (e Jonhy Winter e Buddy Miles). Vozes e guitarras dos mortos. O rock é o hino da juventude autodestrutiva, enquanto os seus companheiros de geraçom matavam e eram matados no Viet Nam outros, na retaguarda, autodestruíam-se. A violência, a doença mortal da sociedade norteamericana, canta hinos de guerra e rock de suicidas. Em geral, a juventude é um tempo terrível e mortal.

NACIONALISTAS. Num suplemento cultural dum jornal madrilenho falam dous intelectuais, Félix de Azúa e Jon Juaristi, sobre “os nacionalismos”. Nom se referem aos nacionalismos dos estados, o nacionalismo espanhol, francês, norteamericano, etc., nom; referem-se aos que obsessionam tanto bastante gente alá em Madrid, o vasco e o catalám. Os dous varons som críticos com nacionalismo catalám e vasco respectivamente e desde logo coincidem os dous em que tenhem razom: som nacionalismos cheios de defeitos e para além disso errados pola sua própria natureza nacionalista.

Um já nom aguarda da imprensa madrilenha que algum dia discutam aspectos odiosos do nacionalismo espanhol, que também os tem; fam como que nom existe. Sequer quando tratam dos outros nacionalismos, esses que chamam “os nacionalismos”, podiam chamar gente que pensasse diferente. Ainda que unicamente fosse para que parecesse um debate e por nom aborrecer a gente. Ai, os prazeres onanistas da ideologia.

CONDECORAÇOM MILITAR A UM ALCAIDE. O exército espanhol acaba de condecorar o
alcaide da Corunha por defender a ideia de Espanha. O actual alcaide corunhês é o único político em activo que nom aceita a Espanha nascida da Constituiçom que reconhece a existência das nacionalidades históricas. Diante disso ele defende a Espanha “de los Reyes Católicos” e fai em falta que os meninos de hoje conheçam Guzmán el Bueno. Fai em falta a Espanha da nossa infáncia, a do ditador sem coraçom. E isso é o que o Exército premia. Nom é para chorar, é para indignar-se. Esse exército mudou, mais alguns chefes nom mudárom.

TAMPOUCO OS BISPOS MUDAM. Nom pedem perdom nem desculpas por alentar a sublevaçom militar, a terrível Guerra Civil que abençoarom como Cruzada, a repressom da posguerra, a ditadura. O episcopado da Igreja Católica Espanhola segue a ser de direitas. Ponhem difícil o ser católico.

DEIXEMOS OS FASCISTAS e lembremos os democratas que fôrom assassinados por sê-lo. Quase que nom sabemos ainda os seus nomes e nom sabemos os nomes dos que os assassinárom. Leiamos, por exemplo, um livrinho, as memórias da corunhesa Syra Alonso que narra a infámia e os nomes das vítimas e dos infames na sua cidade.

BUSCO UM DISCO DE VIOLETA PARRA desde hai anos. Nom o havia, descatalogados todos, até hai uns meses nos que editárom umha antologia. Pergunto por ela umha e outra vez na grande tenda do meu bairro e nunca o tenhem, nom dá chegado, parece. Nom é certo que o mercado nos ofereça de todo, oferece moito do mesmo mais se eu quero escoitar Violeta Parra, Atahualpa Yupanqui, nom podo. O mercado nom me permite isso, está fora da moda. Eu estou fora da moda.

THERAPY? Contodo um atopa de quando em vez cousas interessantes no mercado, numha loja de discos escoitei umha música e comprei-na, era o segundo disco de “THERAPY?”, moi bons. A atracçom do punk, a atracçom da autodestruiçom, do sinistro, do escuro. Quixéramos poder jurar que Bach é a nossa Bíblia mais umha e outra vez aflora o turbo que vai em nos.

UM ESCREVE sempre sobre si próprio. Também quando escrevo contra algo escrevo contra umha parte de mim, contra mim próprio.

DOAÇOM DE ÓRGAOS. Num centro de saúde, um cartaz: o rosto dumha menina (como exprimir com palavras o rosto dumha menina?), debaixo di “Vive graças a um transplante”. E bem. Um gosta de pensar que quer que o enterrem inteiro, voltar inteiro à terra e cessar. Volver a formar parte inerte do mundo, no fim religados. Nom obstante nom está mal a ideia de que umha parte de um continue a existir dentro de alguém, formando parte doutra vida. Isso é religaçom também.

LIVROS E FILMES QUE FAM CHORAR. o filme baseado na obra de John Irving, Príncipes de Maine, fai chorar. Um vai a vê-la e chora e chora. E sai da sala melhor pessoa que quando entrou. Bençons para John Irving. A boa arte que nos fai melhores. A arte nom é nada se nom vai fecundada por essa dor, se nom trata das cousas que importam ou que devem importar.

TEM CERTA GRAÇA O PATRIOTISMO QUE TENHEM ALGUNS “PROGRES” ESPANHOIS COM A ILUSTRAÇOM E A REVOLUÇOM FRANCESA. Sempre opondo a sua Racionalidade à Irracionalidade do Romantismo e dos sentimentos nacionais, seica. E contodo eu nom vejo em toda a História de Ocidente umha irrupçom tal do irracional na vida social.

“Audácia, audácia e mais audácia” berrava Dantón e esse pulo levava à guilhotina, sangue e sangue derramado implacavelmente. Nom houvo gente mais exaltada, irracional, perigosa, patriota, romántica, que essa que defendia a Racionalidade. Os filhos do displicente Voltaire.

Botelha ao mar 1

UM TIPO C0M TRES TELEFONES MOBEIS:

Perdeu o seu e acaba de achá-lo. Mentres tanto ele comprou um novo e a sua namorada, sem sabê-lo, deu-lhe outro. Agora anda com três e recebe chamadas polos três. Anda um bocado desconcertado alerta ás chamadas e aos bolsos. E os bolsos da chaqueta estám a ceder.

“QUE COUSA vê, Jerónimus Bosch, o teu olho atónito?”

(D.Lampsonius)

A OPERA é TRANSEXUAL.

Tantos anos, desde crianças, a trabalhar a máscara da virilidade, a cultivar a figura e o timbre “masculino” da voz…, e de repente reparas em que estás a cantarolar umha ária da gueixa da Madanme Buterfly, ou da Penélope do “Retorno de Ulise in Patria”, ou da Dido de Purcell…, buscando na tua gorja um registro de mulher rendida.

A ópera é verdadeiramente perturbadora da nossa identidade. Nom é estranho que um macho como é devido a despreze. Puta ópera.

A ANARQUIA POLO CHAN

Um “yonki” preso numha mirada psicótica, loce umha camisola preta com um grande “A” dentro dum círculo enorme. Que desconcerto o dos velhos anarquistas, laboriosos, sonhadores e austeros, se vissem esta humanidade tam lastimada e lastimosa a anunciar o que foi a súa utopía. O sonho deriva cara o pesadelo. E a esperança em niilismo.

ACABO de saber que os meus apelidos Toro e Santos formam o Touro Divino, o Dioniso. Um segue avançando no autoconhecimento pola palavra.

ALGUÉM LEVANTA UMHA CASA, grande e boa, com finca. Chanta nela um hórreo, um cruzeiro entre o céspede. Nem o hórreo vai guardar grao nem o cruzeiro santifica ou protege cousa nengumha.

Esta espécie de aparente saúdo respeitoso ao “tradicional” nom é mais que insulto ao trabalho e à piedade, pois nada mais serve para anunciar que o triunfal proprietário já nom tem que trabalhar na terra, como na sua infáncia ou como os seus pais, e que também nom crê em religiosidades de gente supersticiosa. Ele e mais a sua esposa e filhos já bebem Coca-Cola.